segunda-feira, novembro 01, 2010

UM TÚMULO PARA O CRISTIANISMO, OU O EPITÁFIO DA IGREJA?

“Se a Igreja continuar a fazer o que está fazendo atualmente, e a ser o que é hoje, então não terá futuro. Suas belas igrejas e magníficas catedrais tornar-se-ão monumentos sepulcrais, túmulos de Deus e do cristianismo”.[1]

A frase acima foi escrita por Adolfs Roberts em 1967, ou seja, a exatos 43 anos, e já trazia em seu bojo preocupações inquietantes em relação ao futuro da Igreja. A frase lapidar representa em última análise um perigoso vaticínio para os futuros sonhos do cristianismo. Um olhar sobre a Igreja nesse começo de milênio, deve nos levar a uma corajosa pergunta, qual seja: o que esse prognóstico eclesiástico tem a ver com o nosso tempo?

Nos últimos dias tenho recebido dezenas de E-mails, que acredito já cheguem a uma centena, todos eles frutos de um intenso debate travado na mídia e trazem juízos de valores divergentes sobre temas que a meu ver não mereciam tanta atenção. Tenho tentado não me envolver nessa polêmica, que em síntese diz respeito apenas às filigranas da religião e que de certa forma nos entorpecem e nos levam a fechar os olhos para os reais problemas que afligem a sociedade. Tenho me perguntado sem resposta: Que importância tem os assuntos tratados em nossas Igrejas, muitos com acaloradas emoções, para aqueles que vivem fora do gueto no qual a igreja se fechou? Qual a contribuição que a igreja está fornecendo para tornar esse mundo melhor.

Muita gente tem se perguntado: por que será que atualmente as pessoas não querem mais ficar na Igreja? A resposta é simples, ela tem se tornado um ambiente inóspito, de censura, recriminação e seu discurso iminentemente castrador. Dessa forma, as pessoas são atraídas para a igreja, mas com o tempo, cansados, machucados, decepcionados e feridos, se afastam e muitas vezes para sempre.

Desde que Nietzsche proclamou a morte de Deus, e isso já faz muito tempo, talvez seja a hora de anunciar outro funeral. Parafraseando o filósofo diríamos - Para onde foi a Igreja? já lhes direi ! Ela se suicidou – A Igreja está morta! A Igreja continua morta! Ela se matou![2]

Talvez não tenhamos nos apercebido mas a igreja em sua versão católico/evangélica chegou ao início do terceiro milênio de sua caminhada. Já não se trata de uma comunidade desconhecida nascendo na palestina do século I, nem daquela igreja poderosa que carregava nas costas (a exemplo do Atlas grego) os destinos de toda uma Europa medieval. Os tempos são outros; novos problemas e dilemas se apresentam e desafiam a igreja a demonstrar os seus valores e a marcar o mundo no qual está inserida, não com velhos discursos baseados em textos antigos, e sim com uma práxis relevante, viva e atual. Acontece que apesar do crescimento numérico, a Igreja não consegue moldar o mundo com os valores éticos ensinados por Jesus.

O desencanto tomou conta de mim e resolvi reler alguns textos que há algum tempo escrevi e aos quais recorro aqui. Em um dos meus artigos escrevi.

“Chegamos ao início do terceiro milênio; acredito que o cristianismo enfrenta agora talvez o seu maior dilema, qual seja: o desafio de reler a sua trajetória desde o seu nascedouro até aqui; a tarefa de fazer uma re-visão de sua missão no mundo e buscar uma via alternativa para o futuro”.[3]

Pois bem, diante dos últimos acontecimentos envolvendo a Igreja evangélica em sua relação com a política no Brasil, começo a duvidar que ela seja capaz de realizar essa missão. Confesso, com um certo desânimo, que me sinto frustrado com o passado, desencantado com o presente e pessimista em relação ao futuro. Os últimos acontecimentos mostram uma igreja envolta em uma situação psicanalítica curiosa, para não dizer preocupante. A guerra de vaidades travada no meio evangélico especialmente entre os telepastores e veiculada em emails, blogs, TVs, e similares, e as muitas denúncias envolvendo padres católicos e os escândalos éticos envolvendo pastores, dão conta de que a igreja oscila no limite entre a lucidez e a loucura, e de certa forma deixa aparecer a nudez que por muito tempo tratou de esconder.

A razão desse desconforto se encontra em uma certa hipocrisia sustentada por tabus e preconceitos cultivados ao longo do tempo e mantidos por meio de chantagens emocionais, recompensas e castigos. não é de se estranhar que na atualidade, a igreja tenha perdido a sua relevância e já se verifique um certo desalento em relação à religião enquanto instituição religiosa”.[4]

Ao longo de sua história, o cristianismo fez opção pelo moralismo casuístico e vem ocupando o tempo com minudências e pormenores da religião, em outras palavras, em coar mosquitos. Para ilustrar o que digo, transcrevo aqui parte de texto que escrevi sobre o assunto:

A história da Igreja está recheada de atitudes que muitas vezes consome as energias e enfraquece a sua influência no mundo, a exemplo da luta histórica da Igreja para perseguir os hereges, as bruxas (muitos queimados nas fogueiras) e os liberais que ousaram contestar a palavra de Deus. Podemos dizer que a Igreja se especializou em coar os mosquitos doutrinários, que de forma nenhuma podem ser tolerados, no entanto os camelos passam despercebidos[5]

Sinceramente, e com certa tristeza, vejo que o sonho de Jesus de uma igreja “sal, luz e fermento”, portadora dos valores do reino que se arrasta como uma “rede” apanhando todo tipo de peixe, naufragou no modelo puritano de uma igreja pura, imaculada, separada do mundo e conseqüentemente indiferente aos seus clamores. Confesso que já sonhei com uma igreja encarnada diferente e capaz de fazer diferença; não essa diferença marcada pelo isolamento, preconceituoso, cheio de julgamentos e condenações e sim uma diferença ética em favor de mudanças substantivas, especialmente em benefício dos mais necessitados. Em um dos meus devaneios escrevi: Penso em uma Igreja que seja Espiritual, sem deixar de ser humana, que olhe para cima sem se esquecer da terra, onde a preocupação com o céu e inferno não seja motivo para esquecer as mazelas que afligem os homens aqui e agora” [6]. Eu acreditava na possibilidade dessa igreja vir a existir, eu anelava pela sua presença, coisa que já não acredito mais.

Sonhei também com uma igreja apaixonada pelo mundo, nos moldes do amor divino que “amou o mundo de tal maneira”, mas vejo uma igreja de costas para o mundo, com os olhos voltados para o passado e alheia aos problemas do presente. Acredito que é necessário que a Igreja se apaixone pelo mundo, não como o lugar da ação dos demônios e sim como o lugar onde o reino de Deus está sendo edificado” [7] Já não dá para continuar com esse discurso extraterreno, que a cada dia revela a sua inutilidade para o mundo moderno.

Já não é fácil distinguir uma igreja de um supermercado, elas viraram verdadeiras pizzarias espirituais, onde as bênçãos são vendidas por telefone. Atualmente a certeza da vitória é medida pelos comprovantes de depósito nas contas bancárias de determinados empresários da fé. Nessa verdadeira feira de bens simbólicos:

as igrejas se transformaram em verdadeiros mercados de espiritualidade que comercializam a graça em gôndolas sagradas. A Fé foi transformada em moeda de troca para se adquirir o favor divino. Pastores foram transformados em executivos da fé, preocupados em atender a clientes insatisfeitos em busca de novos produtos, [8]

Ministérios mambembes, verdadeiros camelôs da fé circulam pelo Brasil, ensinando “segredos” para conquistar prosperidade instantânea. Com base em uma hermenêutica pouco convencional do princípio da semeadura, ensinam que se você quer prosperar precisa investir em seus ministérios. Dessa forma enriquecem às custas de pessoas incautas que acreditam que descobriram as chaves divinas para o enriquecimento rápido e fácil.[9] Em nome de Deus, proclamam o calote de dívidas e depósitos milagrosos de dinheiro nas contas bancárias. È a versão evangélica dos Hackers cibernéticos.

Depois dessa breve reflexão, cheguei a uma dura conclusão, à qual me recusava a chegar: Assistimos hoje as exéquias de um cristianismo que feneceu e ainda permanece insepulto e talvez já seja tempo de escrever numa lápide do cemitério da vida o seguinte epitáfio: “Esse é o túmulo do Cristianismo e aqui descansa em paz o Corpo de Cristo”.


[1] ADOLFS, Robert, Igreja, Túmulo de Deus?. p. 64

[2] NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciencia § 125 p. 48

[3]AZEVEDO, Neilton. Religião, Utopia e Esperança: Um projeto de Teologia Libertadora no Contexto Nordestino. Texto não publicado

[4]AZEVEDO, Neilton. Crepúsculo do Fundamentalismo Religioso (Preâmbulo para uma teologia iconoclasta) Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/crepsculo-do-fundamentalismo-religioso.html

[5]AZEVEDO, Neilton. Sal, Mosquitos e Camelos. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/sal-mosquitos-e-camelos.html

[6]AZEVEDO Neilton. Em Busca de uma Eclesiologia Encarnada. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/em-busca-de-uma-eclesiologia-encarnada.html

[7] Idem.

[8] AZEVEDO, Neilton. Disk Bênçãos e Milagres, A era do Cristianismo Delívery. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/03/disk-bencaos-e-milagres-era-do.html

[9] Cf. AZEVEDO, Neilton, Hackers Espirituais, ou a Sacralização do Calote? Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/hackers-espirituais-ou-sacralizacao-do.html

TEXTOS CONSULTADOS:

ADOLFS, Robert, Igreja, Túmulo de Deus? Tradução de Rodolfo Konder, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968.

NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

AZEVEDO, Neilton. Sal, Mosquitos e Camelos. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/sal-mosquitos-e-camelos.html

AZEVEDO, Neilton. Em Busca de uma Eclesiologia Encarnada. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/em-busca-de-uma-eclesiologia-encarnada.html

AZEVEDO, Neilton. Crepúsculo do Fundamentalismo Religioso (Preâmbulo para uma teologia iconoclasta) Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/crepsculo-do-fundamentalismo-religioso.html

AZEVEDO, Neilton. Hackers Espirituais, ou a Sacralização do Calote? http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/hackers-espirituais-ou-sacralizacao-do.html



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quarta-feira, abril 14, 2010

MALANDRAGEM UNIVERSAL

Confesso que fiquei enojado, para não dizer revoltado; ao assistir as cenas de um lider da Igreja Universal do Reino de Deus (divulgadas na Internethttp://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=56142&mdl=27) ensinando seus pastores a trapacear para manipular a fé de pessoas crédulas, com o único objetivo de arrecadar dinheiro; para tanto prometia receitas para vencer a crise financeira ocorrida durante o ano de 2008.
Não desejo julgar ninguém aqui; não sou juiz do mundo e nem pretendo ser. As imagens e o audio no entanto, falam por si mesmos; não se trata de opiniões de terceiros sobre o fato; são gravações em tempo real, que os mesmos sequer negam a sua veracidade, apenas tentam justificar o injustificável.
Quais são as lições que aprendemos desse epsódio:
1. Nesse país a picaretagem sempre será recompensada: De nada adianta mostrar ao mundo essas imagens que envergonham a igreja evangélica brasileira e em especial os pastores sérios desse país. Os templos dessas arapucas, desses mercados espirituais travestidas de igrejas continuam cheios e o dinheiro continuará a jorrar em suas torneiras. Enquanto houver pessoas que acreditam em tudo que se diz, de duendes a milagreiros, os embusteiros, os picaretas país terá um campo fertil para ganhar dinheiro de forma fácil. Nada mudou e nada vai mudar.
2. De nada adianta a honestidade e o trabalho sério: Não estou defendendo a malandragem e a desonestidade como modo de vida. Mas convenhamos; é duro ser honesto nesse país. As Igrejas sérias e os pastores honestos que respeitam seus liderados e não exploram a fé dos mais fracos. Tais pessoas não gozam do respeito e da admiração que os ilusionistas de plantão desfrutam. Acho que chegamos ao tempo no qual se cumpre a profecia de Rui Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
3. As pessoas gostam de serem enganadas: As mentiras utilizadas pelos "malandros" da Universal (e é assim mesmo que eles se tratam no vídeo) são tão obvias e velhas, que não dá para entender como alguém ainda acredita nessas babozeiras. Acreditar que entregar tudo que se tem nas mãos de quem quer que seja, seja uma determinação de Deus para abençoar quem precisa é um sinal de infantilidade espiritual. Na verdade, os "malandros" utilizam o velho truque do estelionatário, de oferecer vantagem para suas vítimas, e acreitem ou não funciona, os otários caem como moscas no mel.
4. O demônio realmente existe: Assistir as cenas de pastores aprendendo a enganar as pessoas, brincando e fazendo chacota de suas vítimas, não dão a certeza da existência do diabo, de demônios e de outros seres mais da mesma natureza. A certeza vem das próprias cenas e das palavras ali proferidas. Uma das afirmações do líder é que o "demônio da crise" roubaria o dinheiro das pessoas. De fato isso aconteceu: o demônio roubou o dinheiro daqueles que embarcaram nessa canoa furada. Afinal, todos sabem que o diabo mente, engana, rouba e ilude, so que neste caso, o diabo tem nome, endereço, CPF. cartão de crédito e um gorda conta bancária.
Ate quando, assitiremos essas cenas lamentáveis que se repetem todos os dias? Até que as autoridades desse país resolvam moralizar a religião, que nesse caso como diria jesus tem se transformado em covil de salteadores.

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sábado, abril 03, 2010

O FEITIÇO ERÓTICO DO CASO NARDONI

Sinceramente, nao pensei em escrever acerca desse epsódio lamentável envolvendo a família Nardoni, e que gerou em mim sentimentos estranhos e contraditórios. Tenho me perguntado sem obter resposta alguma: O que aconteceu?
Que feitiço foi esse que dominou o país envolvendo a morte da menina Isabela Nardoni? Que motivação dominou pessoas para pedir dispensa de seus empregos, madrugarem na porta do forum, e se acotovelarem por dias a fio numa sandice poucas vezes vista,clamando por justiça e condenando antecipadamente o pai e a madrasta da menina como os reais assassinos, sem que o julgamento sequer tivesse começado?.
Que erotismo foi esse que invadiu as pessoas num verdadeiro frenesi quase orgásmico fazendo com que muitos declarassem sua plena satisfação com a condenação conquistada pela promotoria? Que prazer insano é esse?
Sinceramente me senti dividido entre a dor da família da menina e o sofrimento dos pais dos acusados; entre a busca pela justiça e a dúvida da autoria (considerando que não se obteve certeza de quem exatamente praticou o crime), fato esse plenamente divulgado pelo circo midiático montado para teatralizar o evento. Entrevistas com Juízes, desembargadores, advogados e juristas de todo tipo. Jurados foram entrevistados, psicólogos interpretaram cada gesto do casal, desde a impassividade às lágrimas, ou seja, o "julgamento" foi transformado num verdadeiro reality show, uma espécie de Big Brother judicial a céu aberto. Permitam que eu aspei a palavra julgamento; não que duvide da lisura do Juíz dos promotores, advogados e jurados ali presentes, as aspas apenas indicam que eles já entraram no tribunal condenados pela mídia, e nenhum jurado no mundo teria coragem de dizer o contrário.
Que erotismo tomou conta desse povo? Acredito que os dois foram eleitos, numa espécie de "bodes expiatórios", um tipo de messias às avessas, para pagar por todos os crimes do país, os deles (se culpados) e por todos os outros que ficaram impunes.
Quantas "Isabelas" existem por esse Brasil afora?, Quantas "Anas Carolinas Oliveiras"? Quantos "Alexandres Nardonis e Anas Jatobás"? Por que não nos excitamos por uma justiça para todos?, porque não fazemos passeatas e vigílias por todos os injustiçados? São perguntas que ainda aguardam respostas.
Durante esse tempo, estive dividido. Entre a necessidade de punir os culpados (se provado serem eles) e a tristeza de saber que milhares de crianças morrem nos hospitais, de fome, de doenças previníveis; são vítimas de corruptos engravatados que compram carros e mansões com o sangue desses inocentes e permancem impunes; fiquei pensando que muitos deles poderiam está ali no meio da multidão clamando por justiça.
Fiquei dividido entre apoiar o trabalho aparentemente sério e comprometido do Promotor Francisco Cembranelli e a angústia de saber que nesse país, promotores, juízes, desembargadores e tantos outros vivem acima da lei.
Pensei no Advogado de defesa. Hostilizado pelas pessoas como um bandido, como se fora um mercenário defendendo um monstro apenas por dinheiro. Creio que ele estava certo (ou errado) acerca da inocência do casal.
Meu coração se partiu em dois ao pensar na possibilidade da menina Isabela ter sido morta por aqueles que deveriam proteger sua vida, e na possibilidade de condenar triplamente um inocente. Pois se Alexandre Nardoni não matou sua filha, terá sido punido inocentemente três vezes; pela perda da filha, pela condenação judicial e pelo afastamento dos outros filhos. Sinceramente penso que seja mais prudente absolver o culpado que condenar o inocente.
Fiquei pensando: Que feitiço erótico é esse que invadiu o país, que levou tantas pessoas a esquecer a realidade e a embarcar numa fantasia de que a condenação do casal seria a esperança de dias melhores para um país injusto como é o Brasil?
Ao olhar para a realidade, percebo que a mídia repisou o fato e decidiu antecipadamente os destinos do casal.
Fiquei pensando na quantidade de inocentes que já foram condenados pelas multidões, e que permaneceram presos por anos até ficar provado suas inocências (recomendo a leitura do livro "Erros Judiciários" de Lásinha Luis Carlos, editado pela Editora São paulo) O livro destaca casos famosos registardos na história, tais como: O Caso Mota Coqueiro - Brasil 1855; O caso dos Irmãos Naves- Brasil 1938; O caso do Padeiro da Ilha de Malta-,; O caso Ivan Garditch- Bulgária 1924; O caso Saco e Vanzetti- Estados Unidos 1927; O caso Jennings - Inglaterra 1762; O caso Dreyfus- França 1894; e O caso do Regatão da Amazônia- Brasil 1800. Além disso, basta procurar na Internet para ver a quantidade de casos existentes no Brasil e no mundo. E se no calor das emoções tivermos julgado erroneamente e o casal vier a engrossar essa lista?
A pergunta que faço é essa; Que feitiço erótico é esse que nos leva ao delírio pelo fato de condenar alguèm?

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sexta-feira, abril 02, 2010

UMA PÁSCOA INVERTIDA

Todos os anos as coisas se repetem na Páscoa. Ovos, peixes, vinhos, encenação da paixão de Cristo, cerimônias religiosas, penitência, procissões, etc. Tudo isso acontece dentro da moldura cujo quadro é a morte de Jesus. Confesso que já me cansei dessa hipocrisia que domina a sociedade nesses dias, dessa falsa espiritualidade encenada travestida de piedade cristã.

Quero uma páscoa invertida, onde a atitude não seja a de presentear ovos de chocolate para aqueles que efetivamente não precisam; uma verdadeira pândega onde aqueles que podem se esbaldam numa gastança desenfreada que denuncia indiferença, egoísmo e falta de solidariedade.

Na páscoa invertida, nesse dia, aqueles que têm, repartem com os mais desafortunados da vida. O presente não é para a família, para os amigos e sim para pessoas anônimas. Afinal Cristo não veio apenas para atender seus familiares e amigos; na verdade ele se deu pelos mais necessitados do seu tempo.

Na páscoa invertida a sexta feira não é dia de comer peixe, e sim de proteger os rios, os peixes, as águas, os mares, os corais. Nessa páscoa celebra-se a vida, incluindo-se aqui o respeito para com os animais e o cuidade com a natureza. Acredito ser essa uma ação muito mais condizente com o espírito do cristo, cuja atitude na cruz denuncia essa ação deletéria de matar, representada na crucificação.

Numa páscoa invertida não há lugar para a celebração da morte; ela deve ser lembrada em silêncio, na intimidade de cada um, sem encenações espetaculares com a atores globais, etc, cujo custo não sei precisar. Nessa páscoa, deve-se olhar para os milhares de "cristos" anônimos, crianças, viúvas, idosos, todo tipo de miseráveis que gemem "crucificados" pela sociedade atual; ainda vivos, porém vivendo seu calvário particular. Esse espetáculo já é suficiente para uma páscoa ao avesso.

Uma páscoa invertida não demanda cerimônias religiosas, atos de penitência, nem procissões. Nessa páscoa, os cultos e missas com seus derivados são substituídos por gestos de caridade, pela descida aos grotões, às favelas, aos casebres que nesse dia assistem atônitos suas panelas vazias; os atos de penitência repetidos muitas vezes até derramar o sangue do penitente, deve ser trocado por um grito em defesa das tantas vítimas da violência, pessoas inocentes cujos nomes não podem ser aqui elencados; sangue derramado que todos os dias continua a verter e que deve causar vergonha e tristeza o suficiente para que não precisemos celebrar qualquer tipo de violência. Procissões se transformam em passeatas pela paz, pela justiça e pelo fim da corrupção. Essa páscoa se parece muito mais com a vida e resgata as atitudes daquele homem crucificado em Jerusalém.

Essa páscoa não existe. Talvez jamais venha a existir. Ela não passa de uma quimera, um delírio que não pode subsistir aos apelos da mídia e dos anúncios comerciais. Eu sei disso! Mas acredite: uma páscoa assim eu celebraria com muito mais entusiasmo.


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terça-feira, janeiro 19, 2010

SÓCRATES E O ANTÍDOTO CONTRA OS MALES DA EMBRIAGUEZ.

Que bela coisa para nós, na verdade - para mim, para Aristodemo, para Fedro e para os outros convivas – que vós, os fortes em bebedeiras, renuncieis agora às bebidas! Não falo de Sócrates, que bebe e se contém, como se vê, e está pronto a aceitar a decisão que tomarmos (Platão: O Banquete, , p. 26)

Recentemente me encantei com a leitura do livro “Sócrates e o Beba Com Moderação” do escritor Maranhense Ricardo Coelho um jovem do qual ainda ouviremos falar. O que mais me encantou no pequeno opúsculo, foi a forma profunda e ao mesmo tempo descontraída e descomprometida com que o autor tratou de um tema tão sério e importante que é o problema da bebida alcoólica, seus efeitos e conseqüências na vida dos bebedores, suas famílias e na sociedade.

Para produzir a obra que na minha visão se reveste de uma singularidade no ramo, uma vez que não se atem diretamente à bebida e sim foca o bebedor e suas relações com a bebida, o autor se baseia nos escritos de Platão sobre Socrátes: “O Banquete”, “Fédro” e “Apologia de Sócrates”, livros nos quais Platão apresenta o homem Sócrates em suas múltiplas relações com a sociedade ateniense.

Conhecido por frases filosóficas antológicas como “só sei que nada sei” ou pelo lema que guiava sua caminhada existência, a famosa “homem conhece-te a ti mesmo”, encontramos no “Banquete”, outra face do filósofo que poucos conhecem, a sua dimensão erótica, um homem envolvido em farras, e noitadas na cidade de Atenas, cultivador de relações amorosas, que bebe o bom vinho sem se embriagar, ou seja um homem que encontrou o equilíbrio entre a bebida e a sobriedade, entre o “aproveitar a vida” sem desperdiçá-la, um homem que em outras palavras dominava a bebida, e jamais se deixou dominar por ela, uma das mais difíceis tarefas para quem se aventura no mundo da bebida. Na prática o que vemos é que as pessoas sabem a hora de começar a beber mas dificilmente sabem a hora de parar, dessa forma, nas palavras do autor “a bebida rola sem limites, alta velocidade nas estradas, índice de acidentes duplicados, brigas e bagunças são reflexos claros do mau uso da bebida” p. 15. Para sintetizar o conteúdo do precioso livro, destaco alguns tópicos para uma rápida reflexão:

Sócrates bebia mas não ficava bêbado: As pessoas que bebem sabem muito bem que a embriaguez é uma possibilidade real, o excesso de bebida termina sempre em uma inevitável e indesejável bebedeira. De certa forma, Sócrates ensina o caminho para domar a bebida: Jamais beber até ficar bêbado, Sócrates não tomava a famosa “saideira” que na verdade se repete por vezes até que o bebedor desista de sair, permanecendo no local “enchendo o saco dos donos de bares” e contraindo dívidas.

Além disso, a bebedeira de Sócrates não atrapalhava o seu trabalho: A relação entre bebedeira e trabalho é uma conta que não fecha nunca. Embalados pela curtição, muitos caem na gandaia e enchem a cara de cachaça nos finais de semana, indo dormir encharcado até a alma de bebidas, esquecendo que precisam trabalhar na segunda feira. O resultado são olhos vermelhos, pessoas mal humoradas, desconcentração e baixa produtividade no trabalho, muitos passam a segunda feira bocejando e cochilando em frente ao computador, resultando não poucas vezes em demissões.

Sócrates não ficava ressacado, das noitadas de Atenas: A ressaca é o efeito colateral da bebedeira, isso já está pacificado entre aqueles que se aventuram a tomar um porre. Engov, Red Bull, caldo de ovos com carne e cheiro verde são velhos companheiros daqueles que lutam para vencer a cefaléia e o enfado depois de uma noitada bebendo.

Sócrates bebia mas não vomitava nos bares de Atenas: Essa é uma cena conhecida nos bares. O excesso de bebida provoca reações indesejáveis, entre elas o vômito. Muito bem, embora seja verdade que nem todo mundo que se embriaga chegue a este estágio, não se pode negar também que essa seja uma possibilidade real para aqueles que perdem o controle da bebida.

Além disso Sócrates discutia mas não brigava: Ele não era um bebedor chato ou abusado Sócrates bebia e mantinha a polidez. Beber e abusar, falar demais, agir como se fosse rico, inteligente e namorador, são atitudes que muitas vezes se manifestam nas pessoas depois de esvaziar algumas garrafas ou de sorver várias doses. Além disso, muitos se tornam violentos e irritantes ao mesmo tempo, sendo esse um dos motivos das muitas brigas que se originam nas mesas de bares, com resultados catastróficos.

A bebida não afetou a longevidade de Sócrates. Sócrates não morreu de cirrose hepática como infelizmente acontece com aqueles que se deixam dominar pelo vício de beber, fato esse que as vezes antecipa em anos o final de uma vida; na verdade, Sócrates foi morto aos setenta anos envenenado por cicuta, se não fosse assim, provavelmente teria tido uma vida ainda mais longa. Ainda segundo nosso autor, Sócrates bebia, mas não fumava: Um dos problemas que via de regra acompanha quem bebe é a necessidade de fumar, por vício ou por mera ostentação, o resultado é que nesse caso, a saúde do já combalido bebedor acaba se agravando pelos males do cigarro.

Esse texto baseado no livro citado, não tem qualquer conotação moralista ou de condenação explícita a bebida ou a quem bebe; na verdade, ele analisa uma realidade que se manifesta no seio da sociedade com conseqüências as mais duras possíveis, aprender a beber sem se deixar dominar pela bebida talvez seja uma das coisas mais difíceis de se realizar.

Se vale um conselho já desgastado pela mídia, o ideal é que você não beba, e se beber, faça como Sócrates, beba com moderação.
Obs. O livro "Sócrates e o Beba Com Moderação" pode ser encontrado no endereço:
www.eticaeditora.com.br

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