segunda-feira, março 09, 2009

DISK BÊNÇÃOS E MILAGRES: A ERA DO CRISTIANISMO DELIVERY

Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou: Não ireis pelo caminho dos gentios nem entreis em cidades de samaritanos. Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel. E indo pregai dizendo: o reino dos céus está próximo. Curai enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça daí. Mat. 10:5-8

Depois de ler o texto acima, extraído do Evangelho de Mateus, não podemos deixar de questionar; que lugar ele ocupa na pregação da igreja contemporânea? Como falar de fé e graça em um tempo no qual prevalece a religiosidade de mercado? Jesus orientou seus discípulos a entregar gratuitamente o que assim recebeu. Não autorizou a igreja a construir um rosário de exigências como condição para a bênção, “de graça recebestes, de graça daí”, atualmente alguns pseudo-pastores comercializam o favor divino, requerendo sacrifício e ofertas antecipadas, prática que não encontra supedâneo nos ensinos do evangelho.

A fé tem sido usada como moeda de troca e a graça vendida em estabelecimentos que comercializam o sagrado como outro produto qualquer, de forma que com dinheiro se compra todo tipo de bênção, a tônica da pregação atual é: “fazemos qualquer negócio”

A razão dessa balbúrdia teológica, está na cosmovisão pós moderna, o homem atual está acostumado a viver uma relação de troca, e nessa esteira, tem buscado comprar aquilo que deveria ser adquirido de graça.

Essa visão de Deus tem sido moldada pelos novos movimentos religiosos emergentes no cenário religioso mundial, vivemos era do NEOPAGANISMO – ISOPENTECOSTAL. O termo pode parecer estranho, mas é a forma que tenho encontrado para classificar o movimento moderno das igrejas de resultados, uma igreja que parece pentecostal, mas não é se diz evangélica más não se identifica com qualquer ramo evangélico. Copia o modelo católico, no entanto, se distancia e muito do catolicismo genuíno. Na verdade, suas práticas encontram respaldos nas doutrinas do paganismo antigo, na magia e nas religiões esotéricas antigas, daí a designação neopaganismo-isopentecostal[1].

A marca vais visível dessa nova proposta eclesiastica é o atendimento via telefone, no estilo Delivery, tal qual pizzarias, Pastel Chinês ou coisa do gênero, o cristianismo agora já não representa uma proposta de vida, baseada na entrega, no serviço ao próximo, ele se transformou num produto e a igreja já não é a comunidade de pessoas convertidas, ela se transmutou em um balcão de comérco, onde tudo pode ser adquirido por um preço muito baixo.

Esse modelo de cristianismo prega um Deus bonachão e nepotista, que concede benesses do céu aqui e agora aos bonzinhos e abençoa apenas aqueles que fazem parte do seu circulo familiar. Nessa pregação, Deus existe para oferecer uma vida boa para pessoas descomprometidas com a ética e os valores do reino, porém, disposto a “pagar o preço exigido”, oferecem uma visão mercadológica da fé, onde os sofrimentos não existem; fé que é mais superstição com forte ênfase no misticismo religioso, mistura de magia com religiosidade popular.

Sobre esse modelo de cristianismo, algumas verdades devem ser compreendidas:

EXISTE UMA DIFERENÇA BRUTAL ENTRE FÉ BÍBLICA E FÉ BASEADA EM CRENDIÇES SUPERSTIÇIOSAS

Em primeiro lugar, é necessário dizer que a fé supersticiosa é essencialmente pragmática, as coisas valem enquanto funcionam, ela se manifesta como meio de conquista de bens terrenos, e apenas é invocada em tempos de crise. Fé que se fundamenta numa pregação chantagista emocionalista em que o fiel é obrigado a dar primeiro para depois receber. Esse tipo de fé não se volta para a Deus, seu objeto de invocação, são objetos sagrados e amuletos religiosos.

Além disso, a fé supersticiosa se baseia num evangelho de consumo, que pode ser comprado, adquirido nas prateleiras dos supermercados de bens simbólicos, evangelho que pode ser leiloado pelo quem dá mais, onde é possível escolher entre uma bênção de R$50,00 ou R$ 500,00? Atualmente uma das formas mais fáceis e seguras de enriquecer é fundando uma religião.

A fé supersticiosa adquire um caráter mágico, ela se nutre de jargões, frases feitas, gestos ensaiados, como meio de promover o milagre. Uso de pontos de contatos, sabonetes, rosas, tapetes de fogo, enxofre, fogueira sal, todo tipo de bugingagas, reduzindo a igreja a uma enorme feira que vende todo tipo de bênção.

A verdadeira fé se volta para Deus e não para as suas benesses, busca servir ao próximo e não ser servido, a marca da verdadeira fé é a entrega e não a busca, a generosidade e não o desejo insano de conquista

HÁ UMA DIFRENÇA FUNDAMENTAL ENTRE GRAÇA E ESCAMBO RELIGIOSO

A teologia do escambo concebe a vida cristã como uma transação financeira com o céu; quanto maior a oferta, maior o retorno que se traduz em bênção, e nesse balcão, a fé funciona como moeda de troca. Na teologia do escambo a graça é coisificada, quantificada pelo valor da oferta, mercantilizada, manipulada por executivos do evangelho.

Os mercadores do evangelho baseiam suas pregações na repetição do passado, afirmam, “se aconteceu com Davi, vai acontecer com você”, A graça é conquistada pelo uso do jejum como meio de chantagem, “ele vai ter que responder”, no uso e abuso de campanhas, novenas e correntes, - corrente de Jó, de Davi, dos 12 apóstolos, dos 318 pastores, do cheque, da abundância, das sete orações, do fechamento do fogo, da caverna dos milagres, amarrando o valente e destruindo o gigante, etc

EXISTE DIFERENÇA ENTRE ESPIRITUALIDADE E ESPIRITUALISMO MAGICO

Na era do Cristianismo Delivery, a espiritualidade é transferível, você liga faz seu pedido e recebe a bênção, do outro lado da linha, alguém se encarrega de entrar em contato com Deus que prontamente atende, são verdadeiras pizzarias espirituais.

Vivemos a era da comercialização espiritual, em que as igrejas se transformaram em verdadeiros mercados de espiritualidade que comercializam a graça em gôndolas sagradas. A Fé foi transformada em moeda de troca para se adquirir o favor divino, pastores foram transformados em executivos da fé, preocupados em atender a clientes insatisfeitos em busca de novos produtos, estamos numa encruzilhada, para onde iremos? Que podemos fazer? Bem podemos à moda antiga orar ao pai pedindo que ele nos ilumine o caminho para que tenhamos discernimento quanto ao verdadeiro sentido do ser cristão; ou então nos render aos novos tempos, pegar o telefone e simplesmente pedir que um dos gurus de plantão em alguma rádio desse país faça isso por nós.



[1] A expressão Isopentecostal é utilizada pelos teólogos argentinos, no Brasil temos diversas designações para o movimento: Pentecostalismo Autônomo (Biettencourt), Neo pentecostalismo, Pós Pentecostalismo, (Paulo Siepierski) e Pseudo pentecostalismo (Washington Franco)

1 comentários:

Jeyson Messias Rodrigues disse...

Professor Neilton,

De fato, a mercantilização da fé igênua que leva muitos a ofertarem o "tudo" que têm, parece ser uma tendência cada vez mais comum.
Karl Rahner em seu livro "O Cristão do Futuro", vislumbra uma igreja não mais forte e institucionalizada como a que nós temos. Pelo contrário, imagina uma comunidade fragmentada e espalhada em pequenos grupos, unida apenas por uma fé fruto de escolha pessoal. Um organismo que já não exercerá sobre a vida e decisões dos sujeitos tanta influência. Rahner não foi contemporâneo a algumas das práticas que você menciona em seu texto, mas não consigo deixar de remeter a imaginação desse grande teólogo a um desgaste geral em relação a tantos abusos cometidos "em nome de Cristo". Sabe aquela crise de choro e re-flexão que se dá quando se chega ao fundo do poço, quando se cança de apanhar?
Às vezes me surpreendo comigo mesmo ao me flagrar quase desejando que as pessoas cancem da igreja. Entendo que quando isso acontecer elas estarão, simbolicamente, cançando de serem enganadas, reprimidas, condicionadas. Mas sei que alguns líderes ainda dignificam a ekklésia. Quem sabe um dia, eles consigam minimizar, com ações práticas, esse desgaste ético que ora corrói nossa legitimidade.
Seu texto me traz indignação e me fez pensar em muita coisa. Talvez esse seja um começo: pensar a respeito a fim de, algum dia propormos uma prática pensada, fruto daquilo que Paulo Freire chama de Indignação legítma.
Gostei muito do texto!