sábado, abril 03, 2010

O FEITIÇO ERÓTICO DO CASO NARDONI

Sinceramente, nao pensei em escrever acerca desse epsódio lamentável envolvendo a família Nardoni, e que gerou em mim sentimentos estranhos e contraditórios. Tenho me perguntado sem obter resposta alguma: O que aconteceu?
Que feitiço foi esse que dominou o país envolvendo a morte da menina Isabela Nardoni? Que motivação dominou pessoas para pedir dispensa de seus empregos, madrugarem na porta do forum, e se acotovelarem por dias a fio numa sandice poucas vezes vista,clamando por justiça e condenando antecipadamente o pai e a madrasta da menina como os reais assassinos, sem que o julgamento sequer tivesse começado?.
Que erotismo foi esse que invadiu as pessoas num verdadeiro frenesi quase orgásmico fazendo com que muitos declarassem sua plena satisfação com a condenação conquistada pela promotoria? Que prazer insano é esse?
Sinceramente me senti dividido entre a dor da família da menina e o sofrimento dos pais dos acusados; entre a busca pela justiça e a dúvida da autoria (considerando que não se obteve certeza de quem exatamente praticou o crime), fato esse plenamente divulgado pelo circo midiático montado para teatralizar o evento. Entrevistas com Juízes, desembargadores, advogados e juristas de todo tipo. Jurados foram entrevistados, psicólogos interpretaram cada gesto do casal, desde a impassividade às lágrimas, ou seja, o "julgamento" foi transformado num verdadeiro reality show, uma espécie de Big Brother judicial a céu aberto. Permitam que eu aspei a palavra julgamento; não que duvide da lisura do Juíz dos promotores, advogados e jurados ali presentes, as aspas apenas indicam que eles já entraram no tribunal condenados pela mídia, e nenhum jurado no mundo teria coragem de dizer o contrário.
Que erotismo tomou conta desse povo? Acredito que os dois foram eleitos, numa espécie de "bodes expiatórios", um tipo de messias às avessas, para pagar por todos os crimes do país, os deles (se culpados) e por todos os outros que ficaram impunes.
Quantas "Isabelas" existem por esse Brasil afora?, Quantas "Anas Carolinas Oliveiras"? Quantos "Alexandres Nardonis e Anas Jatobás"? Por que não nos excitamos por uma justiça para todos?, porque não fazemos passeatas e vigílias por todos os injustiçados? São perguntas que ainda aguardam respostas.
Durante esse tempo, estive dividido. Entre a necessidade de punir os culpados (se provado serem eles) e a tristeza de saber que milhares de crianças morrem nos hospitais, de fome, de doenças previníveis; são vítimas de corruptos engravatados que compram carros e mansões com o sangue desses inocentes e permancem impunes; fiquei pensando que muitos deles poderiam está ali no meio da multidão clamando por justiça.
Fiquei dividido entre apoiar o trabalho aparentemente sério e comprometido do Promotor Francisco Cembranelli e a angústia de saber que nesse país, promotores, juízes, desembargadores e tantos outros vivem acima da lei.
Pensei no Advogado de defesa. Hostilizado pelas pessoas como um bandido, como se fora um mercenário defendendo um monstro apenas por dinheiro. Creio que ele estava certo (ou errado) acerca da inocência do casal.
Meu coração se partiu em dois ao pensar na possibilidade da menina Isabela ter sido morta por aqueles que deveriam proteger sua vida, e na possibilidade de condenar triplamente um inocente. Pois se Alexandre Nardoni não matou sua filha, terá sido punido inocentemente três vezes; pela perda da filha, pela condenação judicial e pelo afastamento dos outros filhos. Sinceramente penso que seja mais prudente absolver o culpado que condenar o inocente.
Fiquei pensando: Que feitiço erótico é esse que invadiu o país, que levou tantas pessoas a esquecer a realidade e a embarcar numa fantasia de que a condenação do casal seria a esperança de dias melhores para um país injusto como é o Brasil?
Ao olhar para a realidade, percebo que a mídia repisou o fato e decidiu antecipadamente os destinos do casal.
Fiquei pensando na quantidade de inocentes que já foram condenados pelas multidões, e que permaneceram presos por anos até ficar provado suas inocências (recomendo a leitura do livro "Erros Judiciários" de Lásinha Luis Carlos, editado pela Editora São paulo) O livro destaca casos famosos registardos na história, tais como: O Caso Mota Coqueiro - Brasil 1855; O caso dos Irmãos Naves- Brasil 1938; O caso do Padeiro da Ilha de Malta-,; O caso Ivan Garditch- Bulgária 1924; O caso Saco e Vanzetti- Estados Unidos 1927; O caso Jennings - Inglaterra 1762; O caso Dreyfus- França 1894; e O caso do Regatão da Amazônia- Brasil 1800. Além disso, basta procurar na Internet para ver a quantidade de casos existentes no Brasil e no mundo. E se no calor das emoções tivermos julgado erroneamente e o casal vier a engrossar essa lista?
A pergunta que faço é essa; Que feitiço erótico é esse que nos leva ao delírio pelo fato de condenar alguèm?

1 comentários:

Paulo Nascimento disse...

Olá Neilton!

Parabéns pela reflexão. De uma lucidez enorme!

Olhe, eu não sei o feitiço das massas aí implicadas foi "erótico", mas sem dúvida, como você disse, ele foi "orgiástico"! Eu também tenho uma pontinha de dúvida comigo sobre a culpabilidade desse casal. De todo jeito, estavam mesmo condenados por antecipação. Sobre uma ótima avaliação da "Psicologia das Massas", eu lhe recomendo um texto de Freud chamado PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANÁLISE DO EGO, onde ele faz um sumário das idéias de Gustav Le Bon (na coleção "Obras Completas"). É bem controverso, sinalizando para uma irracionalidade intrínseca a certos grupos, mas penso que cabe bem como referencial teórico para entender esse tipo de fenômeno coletivo.

Grande abraço!

Paulo Nascimento