sábado, junho 04, 2011

THEOSIS: A DEIFICAÇÃO DA HUMANIDADE (PARTE 1)

Iniciamos aqui a publicação de alguns artigos sobre a Theosis.

A expressão teológica divinização da humanidade, ou ainda “deificação do homem”, não se propõe a abranger a raça humana em sua totalidade, representa no entanto, uma abordagem histórico-teológica do tema a partir do ponto de vista da expressão popularizada por Edouard Cothenet. “Divinização dos Fieis” Em sua obra As Epistolas de Pedro, (COTHENET, 1986, P. 65) estabelece este uma relação de oposição entre“Humanidade” no sentido da natureza física, carnal dentro dos contornos da biologia, em contraposição à “divindade”, também no sentido da natureza, da essência da forma de ser daquilo que é divino. Esse trabalho se propõe a analisar teologica­mente a possibilidade da participação do homem naquilo que se poderia chamar “A Natureza Divina” ou ainda a sua possível deificação, tendo como ponto de partida, a encarnação do filho de Deus, que conforme preconiza a teologia se encarnou, assumindo não apenas a “forma” humana e sim tornando se homem-Deus.

Polêmico e instigante dentro da teologia, o tema é único no pensamento petrino e pode representar uma novidade dentro ou uma terceira via para compreender o sentido da salvação não como algo restrito ao perdão dos pecados e um possível arrebatamento para um determinado lugar, como apresenta os postulados da teologia evangélica. Da perspectiva da teologia Vétero e Neo-Testamentária o texto contido na epístola de Pedro é única a abordar de forma ex­plícita o tema, embora seja possível encontrar resquícios ofuscados no pen­samento de Paulo e dos escritos aos hebreus, conforme argumentaram alguns estudiosos da matéria.

A “divinização” do Homem (theosis) é uma doutrina que, embora esquecida no Ocidente, ocupa um lugar central na teologia da Igreja Oriental, e que possui suas raízes nos textos vetero-testamentários e, sobretudo, neo-testamentários que estão na própria base da doutrina do Cristianismo universal. É certo que essa doutrina da divinização existe também, implícita ou explicitamente, em quase todas as correntes esotéricas, tendo como raízes, no Ocidente, as religiões de Mistérios, o Orfismo, o Platonismo, a Gnose e o Hermetismo, e como expressões posteriores, uma boa parte da Alquimia e da Magia, da Teosofia e das Ordens iniciáticas, Rosa-Cruz e Maçonaria esotérica. (Ritos e rituais herméticos e alquímicos – parte I”, publicado nas atas do IIIº. Colóquio Discursos e práticas alquímicas, Hugin, Lisboa, 2002. Online no TriploV. Apud. ANES, Jose Manoel, , 2005

Não deixa de ser curioso que esta suprema loucura do Homem querer ser “como os deuses”, ou mesmo “como Deus”, não seja exclusiva de correntes espirituais marginais, mas, pelo contrário, é parte integrante de uma componente fundamental do Cristianismo, “ porque Deus sabe que, no dia em que dele (o fruto da Árvore que está no meio do Jardim) comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus (deuses), sabendo o bem e o mal” (Gén. 3: 5).

O “esquecimento” da doutrina da “divinização”, do homem, dessa possível transmutação radical do ser humano, na Igreja do Ocidente, fez com que ela fosse alimentar o chamado Esoterismo, juntamente com outros temas que foram sucessivamente “expulsos” da Teologia e da Ciência, a saber, para além da “experiência da transmutação”, a doutrina das “correspondências”, a “natureza viva”, a “imaginação e as mediações” – temas que, no seu conjunto, caracterizam aquilo que Antoine Faivre chamou de (esoterismo ocidental” Accès de l’ésotérieme Occidental, Paris, Gallimard, 1986, Introdução e l’Ésotérisme, P.U.F., Paris, 1992 Apud. ANES, Jose Manoel, , 2005

Contrariamente ao que se passou no Ocidente, onde o Esoterismo se constituiu como uma disciplina autônoma, devido a essa “expulsão” progressiva – à “secularização do cosmos” - no Oriente a religião contém grande parte dos temas “esotéricos”, razão pela qual não se constituiu um esoterismo significativo à margem da religião oriental, pelo contrário, o “esoterismo oriental” é parte integrante da religião, mesmo quando se constitui em doutrina ou técnica específicas como o tantrismo.

O Esoterismo é, mais do que uma doutrina oculta, uma doutrina sujeita ao segredo e à “disciplina do arcano”, ele assenta numa doutrina da constituição oculta do Homem, desse germe de divindade (o Messias no Antigo Testamento é designado por germe5) que a Gnose e o Hermetismo já tinham, há dois mil anos - tal como o Cristianismo nascente, com fortes ressonâncias gnósticas, muito particularmente o paulino -, afirmado existir no Homem, e ao qual lhe competia a enorme responsabilidade de o desenvolver.

A prova de que a “theosis” está presente em várias correntes esotéricas são os diversos termos que qualificam essa dimensão divina do Homem e que encontramos em diversas paragens: o “Homem verdadeiro”, ou “sábio”, no Taoísmo, a “Natureza de Buda” no Budismo, “Eu Krishna estou no coração”, no Hinduísmo, “Eu sou Deus” do Sufi Al Hallaj, o “Cristo em nós” de S. Paulo. Mas essa presença divina não está sempre atualizada. Por isso surge-nos uma “antipática” tipologia do Homem (das suas atualidade e potencialidades) proposta pelos Gnósticos do Ocidente - os hílicos, ou materiais, os psíquicos, e os pneumáticos ou espirituais – e que é homóloga da que encontramos no Tantrismo – “os que estão ligados”, pashu, “os que se desligaram”, vira e “os que se libertaram”, diyya. Mas a própria teologia ortodoxa afirma isso mesmo ao dizer: façamos o homem a nossa imagem segundo a nossa semelhança. “Antipática” (embora pedagógica para os que têm ouvidos) é também a doutrina gnóstica (e ortodoxa) veiculada por Gurdjeff – e que assenta na tipologia anterior – a qual proclama explicitamente (noutras paragens isto é dito implicitamente, com precaução) que o Homem não tem uma alma à partida, terá apenas um germe que precisa de desenvolver, de construir (tal como o pedreiro constrói um Templo…).

A existência da potencialidade é afirmada desde logo por S. Paulo quando proclama (Coloss. 1: 27): o Cristo em vós, esperança da glória. Mas Paulo de Tarso refere também (Gál, 4: 19) a existência de um processo que conduz à divinização e no qual, se o nosso homem exterior se corrompe, o nosso homem interior renova-se cada dia (II Cor., 4: 16). Esse processo é descrito pelo Apóstolo como um nascimento - Meus filhinhos por quem de novo sinto as dores de parto até que Cristo seja formado em vós (Gál. 4: 19) – e uma ressurreição (uma transmutação, dirão os alquimistas) – Desperta-te tu que dormes e levanta-te de entre os mortos e Cristo te esclarecerá (iluminará) (Éfes., 5, 14).

Mas os testemunhos neo-testamentários desta potencialidade divina não ficam por aqui, pois encontramo-los, por exemplo, em João, nos Atos, em S.Pedro:

Eu disse: Sois deuses (João, 10, 34);

- nós somos da geração (da raça) de Deus (Atos, 17: 28-29);

- para que por elas (promessas) fiqueis participantes da natureza divina (II S. Pedro, 1: 4);

- somos filhos de Deus…seremos semelhantes a Ele (I S. João , 3: 2).

Esse nascimento do “Cristo em nós” e, por sua vez, comparável ao nascer do Sol, nessa Anatólia espiritual (anatolé, em grego, é o “astro nascente”, ou “astro que se levanta”) que é o Homem em processo de divinização, anunciado, na Segunda Epístola de Pedro, do seguinte modo: até que o dia comece a raiar e que o astro da manhã se levante (nasça) nos vossos corações (II S. Pedro, 1: 19).

Estamos, pois perante uma autêntica Gnose cristã, sendo S. Paulo que abre o caminho que será desenvolvido, sobretudo pelos Pais da Igreja. Mas, tal como refere J. M. Ansembourg, a palavra gnose aparece já no Novo Testamento 29 vezes – por exemplo, a riqueza, a sabedoria e a gnose de Deus (Rom., XI, 33), o perfume da gnose (II Cor. II, 14), a chave da gnose (Luc., XI, 52) e Crescei na graça e na gnose de Nosso Senhor e Salvador Jesus - Cristo (II S. Pedro, III, 18) -, com o sentido de ciência secreta, reservada a uma elite (outra “antipatia” a que os gnósticos já nos habituaram…), a qual é transmitida por uma Unção que engendra o Corpo de Glória13, fim do processo de divinização, pois ele consiste em tornar o homem inteiro perfeito (“teleios”) em Cristo (I Col., 1: 26-28).


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