quarta-feira, novembro 02, 2011

ENCONTRO COM MILTON SANTOS. O mundo global visto do lado de cá. Uma proposta libertária para estes dias tumultuados.

Esse texto foi produzido pela minha filha e pela importancia decidi compartilhar aqui.


Ficha Técnica

Gênero: Documentário, cor.
Ano: 2006
País: Brasil
Diretor: Sílvio Tendler
Duração: 89 minutos.


Milton Almeida dos Santos: (1996 – 2001

O documentário é introduzido com a seguinte frase: “É preciso explicar porque o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e das insurreições.” (Jean Paul Sartre, 1963, Prefácio de ‘Os Condenados da Terra’, de Frantz Fanon).

Em seguida, Milton Santos insere na discussão o conceito de Clarividência: a habilidade adquirida de “tentar ver, a partir do presente o que se projeta no futuro”.

Inicia-se a partir do conceito uma discussão que afirma que a visão do que acontece no mundo é diferente, a depender da localização do observador e sua experiência: “O mundo é o que se vê de onde se está”.

É exibido em seguida os primeiros processos de globalização e seus efeitos. A primeira data dos tempos do descobrimento dos novos continentes foi caracterizada pela ocupação territorial e domínio dos povos para o saque de suas riquezas, ignorando sua história e cultura. A segunda globalização começa no século XX, marcada pela fragmentação dos territórios. A revolução tecnológica promoveu a desorganização da sociedade. O humanismo é deixado de lado e o meio para o progresso passa a ser o consumo voraz, no centro das atenções das sociedades e dos Estados.

A partir desse ponto, a estrutura é dividida em sub-tópicos que constroem uma lógica que exibe as contradições e falhas na política da globalização:

Um pouco de Milton: um discurso em que ele diz considerar-se um intelectual outsider, fala sobre as dificuldades de ser intelectual e negro, os motivos de ter escolhido a geografia e seu interesse sobre as comunidades que mudam de lugar e pela história e considera-se um marxista por ser contra a não-discussão de disciplinas, que acabam por se tornar dogmas. Explica também que o mundo está chegando a um estado de saturação, o que torna possível a construção da sociedade mundial de outra forma.

Ignorando a prerrogativa de que o mundo é assim como nos é mostrado, pode-se considerar a existência de três mundos num só: O mundo como nos fazem ver (globalização como fábula), o mundo como ele é (globalização como perversidade) e o mundo como ele pode ser (uma outra globalização). Existem meios de garantir dignidade e igualdade a todos, mas o interesse privado apossou-se de tais meios e escolheu fazer um mundo perverso.

Consenso de Washington - a globalização como perversidade: uma reunião organizada em 1989 formulou propostas para os países retomarem o rumo do desenvolvimento com medidas como aumento de impostos e juros, mas a crise econômica foi única crise que essas medidas visaram evitar. As crises surgiram e se agravaram, e aconteceram rebeliões populares contra as medidas tomadas. As economias foram desestruturadas pelas importações, privatizações e pelo neoliberalismo. Os países que não atenderam ao Consenso experimentaram desenvolvimento crescente.

As grandes empresas não tem proximidade com os Estados e isso lhes permite agir de forma irresponsável do ponto de vista social e moral, desorganizando os territórios onde se instalam. A mão-de-obra é explorada na divisão internacional do trabalho: mais riqueza distribuída aos pobres e mais lucro para os ricos. O desemprego e a pobreza só aumentam, o salário médio tende a baixar, a classe média perde qualidade de vida: “os de baixo, a cada dia mais, trabalham mais com menos direitos”. O desemprego é visto como algo normal e a fome já não surpreende. Além da fome, as empresas planejam privatizar a água e matar os mais pobres também de sede.

Muralhas do capitalismo: enquanto a globalização permite o livre tráfego de mercadorias, comércio e serviços, proíbe o tráfego de pessoas. Os influenciados negativamente pelos efeitos negativos do capitalismo são impedidos de migrar para países onde supostamente as condições seriam melhores. As armas e o controle são avançados para evitar que a imigração ilegal ocorra nas fronteiras entre os países, custando inclusive a vida de quem tenta uma chance.

A fábula da globalização: O homem deixou de ser o centro das atenções, e este passou a ser o dinheiro em seu estado puro, proposta pelos economistas e imposta pela mídia. Davos se torna o símbolo do capitalismo como trilha para o paraíso. Surge o homo-davos, que propõe a criação de fundos para amenizar a pobreza. As notícias são interpretação dos fatos, e são expostos do ponto de vista dos interesses das empresas que controlam a mídia.

A revanche: Outros autores mostram na mídia, com menor alcance, mostrando o cenário a partir da visão a favor do povo, através do cinema, fora ou dentro dos movimentos populares, mostrando a outra face dessa globalização.

A técnica como plataforma para a liberdade: hoje é possível ser universal sem sair de onde se está, e entender como o mundo funciona se houver uma curiosidade um pouco mais aguçada. A rede representa a conquista da liberdade intelectual do indivíduo e a libertação da alienação por parte dos povos mais isolados que tem acesso à informação e podem produzi-la e publicá-la sem passar por intermediários. Pela primeira vez podemos conviver com o futuro possível.

A revanche da periferia: Hoje, com meios limitados, também se faz uma opinião. A aura de “cultura” é dada às atividades desenvolvidas por parcelas já privilegiadas da população. O que é feito pela periferia não é considerado, mas é, também, cultura, por expressar as opiniões daquele grupo. Há uma possibilidade uma revanche da cultura popular, pondo em relevo a vida dos pobres por meio da exaltação do dia-a-dia.

O período popular da história: o período tecnológico está terminando. A mudança na sociedade virá de baixo – das camadas populares, dos países mais pobres, não de maneira uniforme e ordenada, mas em explosões com bastante força e energia, impossíveis de conter. E eles construirão esse novo mundo.

África e América Latina - Os Gigantes despertando: os problemas dos países desenvolvidos foram causados pelos europeus, que agiram dentro do mundo subdesenvolvido como criminosos, influenciando nas relações entre as tribos e grupos, roubando as riquezas e trazendo pobreza, exploração e sofrimento. Seremos caricaturas tristes dos países do norte, vivendo segundo o modelo imposto? Vivemos sendo convencidos que a habilidade de imitar é a maior virtude que há, exemplificados nos símbolos representados pelo papagaio e pelo macaco. Não aprendemos a pensar a realidade por nós mesmos porque preferimos pensar como europeus, resultando alucinados e tolos.

Por uma outra ética: Há uma ética dos poderosos, uma ética dos que não tem nada e uma para aqueles que, desesperados, tomam o caminho da violência. A ética dos que querem mudanças é suprimida pela ética dos poderosos. Há, em grupos como os sem-terra, uma organização e uma solidariedade que não são divulgadas pela mídia, e que podem ser o modelo de uma revolução que virá a acontecer em breve.

Polifonia política: As formas tradicionais de cidadania, sem direito a trabalho e à moradia (que, quando existe fica longe dos centros), não agradam mais às camadas mais populares da sociedade, e as manifestações são o recurso que muitos usam para se fazer ouvir. Há modificações que só podem ser realizadas pelo Estado, porque é o único que tem o poder de cuidar de todos. As outras instituições são limitadas e, quando tentam fazer o papel que deveria ser do estado, acabam por privilegiar um grupo sobre outros. O Estado se torna cada vez mais indispensável, porque as diferenças são mais fortes que antigamente, e mais difíceis de solucionar.

A democracia, como organização, foi esvaziada de sentido e se tornou limitadora, reduzindo o poder do povo a tirar um grupo que não lhe agrade do poder e substituí-lo por outro, que talvez chegue a gostar, e a representatividade perdeu sua força, sendo todas as demais decisões são tomadas em outra esfera, por instituições de base não-democrática, cujos representantes não foram escolhidos pelas bases populares.

Por uma outra globalização: Criticamos as formas de totalitarismo registradas pela história e caímos noutro, onde o comportamento, as ações, devem ser todas iguais, seguindo o mesmo modelo e todo escape é punido, comprometendo o exercício da cidadania. O mundo suprime a verdadeira liberdade. É a carência de liberdade a marca do nosso tempo, que mais cedo ou mais tarde se tornará insuportável.

Como geógrafo e intelectual, o professor criou uma teoria otimista, na qual o sistema que se instalará beneficiará a maior parte da sociedade, e que em sua opinião é realmente possível acontecer: “...estamos fazendo os ensaios do que será a humanidade. Nunca houve”.(Milton Santos)

Milton Santos, em seu relato, em conjunto com as imagens e discursos colocados no documentário, tenta nos fazer acreditar que é possível construir uma lógica de igualdade e democracia, no sentido original da palavra, no futuro, e que estamos caminhando em direção a ela. Uma visão utópica percebida, por exemplo, quando afirma que o período tecnológico acabará, quando a velocidade com que a tecnologia se renova em 2011, em comparação com o período de 2001 a 2006, quando o documentário foi produzido, é muito maior, e tende a crescer. A alienação provinda da dependência das notícias, das informações, a “onipresença” criada pela rede da internet teve impactos maiores que provavelmente Milton Santos previu quando formulou sua teoria, e com o passar do tempo se torna mais difícil e não mais fácil, quebrar essa regra.

link do documentário no youtube: http://youtu.be/-UUB5DW_mnM

Myllena Karla Santos Azevedo

6º Período de Arquitetura – UFAL

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quarta-feira, julho 20, 2011

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE: DIÁLOGOS COM PAULO NASCIMENTO (PARTE 2)

Estamos publicando a segunda parte dos diálogos travados com Paulo Nascimento acerca de religião e espirtualidade.

N.A - Se não é possível fazer distinção entre religião e espiritualidade, como podemos entender as muitas abordagens existentes que discutem os males da religião? Estes mesmos questionamentos servem para a espiritualidade?

P.N - Primeiro, é possível sim fazer essa distinção. Eu havia dito na discussão anterior que acho a distinção frágil, e devedora à maneira como Karl Barth trabalhava com esses conceitos. Foi depois dele que essa distinção virou moda na Teologia. Mas o fato de eu não trabalhar com essa distinção não a invalida. Afinal, se por um lado eu não absolutizo as formas alheias de se pensar nessas questões, muito menos absolutizo a minha própria forma de pensar. Acho que devemos entender qualquer abordagem, a qualquer fenômeno, criticamente. Óbvio que toda análise está condicionada ideológica e aprioristicamente, inclusive a nossa. Não há como fugir disso. E meu apriori, nesse sentido, é que a religião é tão ambígua quanto qualquer produção da cultura humana. Também penso que a relação entre religião e espiritualidade é mais de um continuun que de ruptura. Por isso não gosto desse fosso radical entre uma e outra.

N.A - Rubem Alves fala de “Religião” e “sentimento religioso”, atribuindo aos dois conceitos valores distintos, de forma que religião se aproxima da idéia de institucionalização da fé e sentimento religioso daquilo que normalmente se chama de espiritualidade. Procede?

P.N - A depender de nossos pressupostos, tudo na vida procede! Lembra de Schleirmacher? Ele também falava em um "sentimento de dependência absoluta". Kierkegaard falava do tal "sentimento oceânico". E Tillich falava de "preocupação última". Todos, com diferentes palavras, estão falando da mesma coisa. Mas outra vez, insisto em não querer separar isso do que chamamos de "religião", mesmo em suas formas institucionais. Acho que a questão não está na proximidade ou na forma institucional. Para mim o problema é de outra ordem. É óbvio que a instituição tende a petrificar o carisma, tende a impor relações de poder que acabam domesticando a experiência com o sagrado. Mas eu fico me perguntando se a experiência espiritual (dentro ou fora da instituição) pode ser traduzida em outros símbolos que não sejam religiosos. Fico me perguntando se ela pode ser traduzida numa linguagem que não seja mesmo mítica, simbólica, sagrada, religiosa. Se quisermos usar a palavra "religião" como sinônimo de "instituição religiosa", aí de fato não dá pra dizer que isso é a mesma coisa que "sentimentos religiosos". Mas acho que a palavra "religião" deve ser pensada com um alcance maior que as instituições. Ela antecede às instituições, ela extrapola as instituições, e confundi-las é um erro.

N.A - Se religião e espiritualidade não podem ser pensadas separadamente, podemos dizer então ser religioso é também ser espiritual. Como entender então a proposta de Bonhoeffer de um cristianismo não religioso?

P.N - Não podemos esquecer que esse conceito de Bonhoeffer ficou inacabado, como um esboço apenas. Ele não teve como desenvolver as implicações dessa proposta. Do que ele indicou, me parece que o "cristianismo arreligioso" está mais para uma espécie de humanismo radical que outra coisa. Chega a me lembrar o existencialismo de Sartre, uma vez que Bonhoeffer propõe que toda referência a Deus e às coisas da religião sejam esquecidas. "O homem deve viver sua vida como se Deus não existisse", diz ele. Como alguém já disse, é uma forma de "ateísmo cristão". Tem lógica? Não sei! Precisaríamos aprofundar mais isso. Suspeito que o contexto de completa desilusão com o protestantismo alemão deva ser levado em consideração na análise da produção de sua proposta. Como entendo a espiritualidade em referência ao que a Bíblia chama de vida no Espírito (e outras tradições chamam de outros nomes), não consigo igualar a proposta de Bonhoeffer a uma proposta de espiritualidade, embora ela seja mesmo tentadora.

N.A - Muita gente profundamente religiosa manifesta atitudes contrárias a uma espiritualidade sadia. Essa distinção procede? Como podemos classificar essas duas vertentes da relação com o sagrado?

P.N - As pessoas manifestam comportamentos ambivalentes nos diversos campos da cultura humana. O da religião é só mais um. Conforme a psicanálise freudiana, a ambivalência é nossa condição inescapável, de tal maneira que não há "espiritualidade sadia" que nos livre dela. Agora, a idéia de uma "espiritualidade sadia" não depende de um mundo de coisas? O que é sadio aqui, não é ali, e vice-versa. Então, uma espiritualidade só poderia ser "sadia" dentro dos limites simbólicos de dada cultura onde as noções de "sadio" e "doentio" estão mais ou menos convencionadas. Georges Canguilhem (orientador de Michel Foucault) tem um livro clássico, chamado O normal e o patológico, onde essas coisas são trabalhadas magistralmente. Por que não haveria uma "religiosidade sadia"? Dizer que não, não seria dizer que a religião é intrinsecamente má? Não retornaríamos assim ao início dessa discussão? E uma espiritualidade doentia seria possível? Por que não?

P.N - Vamos pensar um pouco a relação religião e espiritualidade mais a partir de algumas práticas. Nossa tentação é avaliá-la apenas teoricamente. Vamos tentar analisar algumas práticas. Talvez você diga assim: "mas justo as práticas mostram como a religiosidade é nociva, alienante, castradora, preconceituosa, etc". A questão simples é: todas elas? O que me faz resistir à dicotomia radical entre esses dois termos é a prática de algumas pessoas, dentro das instituições religiosas. Francisco de Assis, Albert Schweitzer, Gandhi, Madre Tereza, Martin Luther King, Dom Helder, foram religiosos ou espirituais? Minha resposta é: as duas coisas. Todas essas pessoas foram o que foram dentro de suas instituições. Eles estavam em total descontinuidade com suas instituições? Sim e não. Sim, pois se relacionavam com elas criticamente, nunca absolutizando-as nem transformando-as em um fim em si mesmas. Não, porque toda sua prática estava organicamente ligada às tradições religiosas a que pertenciam. Acho que esses exemplos facilitam compreendermos aquela idéia de continuun entre religião e espiritualidade. Quando se transforma a instituição religiosa em um fim em si mesmo, como muitas pessoas fazem (a maioria líderes), aí o que temos é mais uma forma de idolatria. Mas eu não chamaria isso de religiosidade, mas talvez de institucionalismo religioso.

N.A - Acho que suas ponderações são absolutamente pertinentes e acrescenta tempero ao debate, mas vamos a alguns desdobramentos:

Consideremos que essas pessoas citadas agregaram em suas práticas religião e espiritualidade e poderiamos acrescentar muitas outras pessoas que fizeram e fazem a mesma coisa. No entanto, resisto a idéia de um continuun necessário por perceber que em sua grande maioria se verifica descontinuidade entre as duas coisas, ou seja: acredito que alguém possa ter condutas ou praticas espirituais sem ser religioso, o que abriria a possibilidade de alguem ser religioso sem práticas espirituais, ou ainda de alguém ser mais religioso que espiritual (ênfase na religião) ou mesmo dessa pessoa ser mais espiritual que religioso (ênfase na espiritualidade). Concordo, no entanto que essas coisas não são estanques, elas são subprodutos uma das outras e interagem entre si, de forma que a religiosidade tende a produzir valores espirituais e a espiritualidade conduz a práticas religiosas (não necessariamente mas possivelmente) Por outro lado eu particularmente não ligo religiosidade a institucionalismo mas aos elementos exteriores tais como ritos, simbolos, cultos, doutinas, etc. Indispensaveis à religião mas não ao desenvolvimento da espiritualidade.


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segunda-feira, julho 04, 2011

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE: DIÁLOGOS COM PAULO NASCIMENTO

“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...”

Religião é casca de cigarra vazia no tronco da árvore e sentimento religioso é a cigarra em movimento” (Rubem Alves)

Em “Imagine... Que Não Há Religiões” texto que escrevi recentemente, teci algumas considerações acerca de possíveis diferenças entre religião e espiritualidade e a partir dele travei um rápido diálogo com Paulo Nascimento, que, na minha opinião nos ajuda a aparar algumas arestas e ampliar o horizonte a ser pensado. Assim, decidi alinhar algumas idéias nesse texto, visando aperfeiçoar alguns conceitos ventilados no texto. Para identificar as falas, usaremos as inicias PN para Paulo Nascimento e NA para Neilton Azevedo

PN - Um mundo sem religiões seria mesmo tão melhor assim que um mundo com religiões?

NA- Ha uma teoria muito difundida por Dermeval Saviani[1] (que você bem conhece) chamada de "Teoria da Curvatura da Vara" que serve bem para o assunto em comento. Como disse no texto, "não sei se um mundo sem religiões seria melhor" ou pior, jamais tivemos a possibilidade de viver essa experiência. Mesmo os países onde ele não é tão presente de forma institucionalizada, convivem com uma religiosidade de bastidor.

PN- Em que medida a divisão entre religiosidade e espiritualidade se sustenta? Quem tem tamanha moral para estabelecer os parâmetros para tal dicotomia? Dizer-se "espiritual" e tipificar o outro como "religioso" não seria uma forma de estabelecer relações de poder? Não seria repetir a mesma arrogância com que a religião tipifica entre puros e impuros? Em que medida essa dicotomia não passa de uma réplica cinzenta da neo-ortodoxia de Barth? Tillich dizia que é impossível falar de Deus em outros termos que não fossem míticos e religiosos. Procede?

NA- Penso que o sustentáculo para manter uma divisão entre espiritualidade e religiosidade padece dos mesmos vícios que qualquer outra cisão de conceitos. Toda vez que nos propomos a fazer distinção entre elementos tão próximos estamos pisando em terreno minado e podemos cometer equívocos. Não sei também se alguém possui moral para garantir os parâmetros dessa dicotomia, mas quem possui para definir qualquer outra? No entanto, acredito que se ela não é um fato inconteste, pelo menos é uma realidade possível. Concordo plenamente que alguém se arvorar a se auto-intitular como “espiritual” e taxar o outro como “religioso”, é fazer um julgamento igual ou pior ainda que aquele que se afirma como “santo” e rotula o outro como “pecador” ou ainda; alguém se definir como “salvo” e classificar o outro como “perdido”; Estaríamos diante de uma reprodução sociológica das mesmas relações de poder e dominação que negamos.

Por outro lado, não vejo dificuldade para distinguir religião de espiritualidade (pelo menos na forma como vejo) Como diz Durkheim: religião tem a ver com sistemas e a sua manifestação é sempre coletiva, enquanto que espiritualidade tem caráter mais pessoal e interior. Essa idéia pode até ser mesmo uma "réplica cinzenta" ou até mais desbotada ainda de conceitos barthianos, mas o inverso também pode ser verdade; a crítica ao conceito pode ser também uma fotografia 3X4 de conceitos tillichianos o que em um caso ou noutro não diminui a sua importância. Mas não há o que fazer o mundo é conceitual e como diria Wittgeinstein, a linguagem cria a realidade, ou seja, nossa forma de ver e entender o mundo passa pela nossa verbalização.

Considerando que toda linguagem sobre Deus é analógica, ou seja, não diz respeito ao sujeito em si, uma vez que ele foge a qualquer possibilidade conceitual, a única forma de falar Dele passa pelo mito e se fundamenta no discurso religioso. No entanto, a espiritualidade não tem por corolário o falar sobre Deus, sobre anjos demônios ou sobre pecado, esse discurso é imprescindível à religião, mas não à espiritualidade, uma vez que esta não depende da elaboração de doutrinas.

PN - Confesso realmente que entre as perspectivas de Barth e Tillich, estou muito mais identificado com o segundo. Em Barth a religião é a expressão da criatura humana perdida em seus pecados. Em Tillich, ao contrário, a religião é a abertura do ser humano à possibilidade de processos revelatórios. - Eu já cultivei muito essa divisão entre religião e espiritualidade. Hoje eu acho que ela é frágil. Eu entendo que quando se fala em religiosidade, se fala de algo mais próximo das instituições. E quando se fala em espiritualidade, se fala de algo mais desapegado das mesmas. No entanto, se olharmos para o conteúdo disso que estamos chamando de "espiritualidade", veremos inevitavelmente o DNA da religião. A não ser que encaremos "espiritualidade" como sinônimo de "humanismo". Não acho isso coerente. Na espiritualidade, quer se creia em deuses ou não, está presente o elemento da transcendência, do mistério, do sentido último da vida, que ultrapassa o ser humano em sua condição de ser histórico. Sei que há humanismos belíssimos na história, e celebro todos eles. Mas penso que espiritualidade é outra coisa. Muito particularmente, creio ainda que a espiritualidade se caracteriza pela comunhão com Deus. Nós, cristãos, chamamos isso de vida no Espírito. Outras tradições dão outros nomes à mesma experiência.

NA - Como disse no texto, uso a palavra espiritualidade partindo da dimensão do espírito humano dos valores que torna o homem "mais humano" e nesse sentido que também vejo a humanidade/espiritualidade de Jesus. Sei que essa não é a única forma de ver e entender o termo. Espiritualidade é um conceito multívoco e possui seus corolários na religião; da mesma forma que religião/religiosidade pode também ter múltiplas compreensões.

PN- Viver a espiritualidade distante dos ambientes institucionais, como fez Jesus, é o mesmo que descartar a visão religiosa do mundo? Em que medida a espiritualidade de Jesus também dialogava com a visão religiosa do mundo?

NA- Penso que Jesus não teve dificuldade em dialogar com a religião de seu tempo, como também dialogou com a cultura, mas não se deixou dominar por ela, não se tornou um “religioso”, suas ações e seus ensinos eram também não se voltavam para o transcendente, já que “as parábolas são narrativas radicalmente profanas. Não há deuses, nem demônios, nem anjos nem milagres, nem tempo antes do tempo, como nas narrativas da criação, nem mesmo acontecimentos fundadores como na narrativa do êxodo”[2] Além disso, talvez a ferocidade não seja a única face da religião que destoa da realidade, a disposição ao controle da liberdade e a tendência a ver o homem numa visão infantil talvez mereça destaque também.

PN - Freud, Feuerbach e Marx vislumbraram um mundo sem religiões no séc. XIX, em que a harmonia humana vigoraria. Nosso Ocidente secularizado cumpriu tais profecias? Vivemos um mundo de paz e equilíbrio?

NA – Apesar de terem pensado um mundo sem religiões, eles não viveram a experiência de um mundo sem religião. A secularização do mundo apenas transmudou a face da religião, que assumiu novos papéis e novas configurações. Dietrich Bonhoeffer ousou pensar em um “cristianismo não religioso”, o que será que ele tinha em mente, um cristianismo sem espiritualidade? Sem valores? Para ele, “Ser cristão não significa ser religioso de certa maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano.” (Resistência e Submissão: 16.7.1945) Não se pode ser ingênuo a ponto de acreditar que a religião seja a púnica responsável pelas mazelas do mundo, nem mesmo que a paz possa ser conquistada pela supressão de qualquer instituição. Mesmo a utopia de uma sociedade sem a ditadura do capital vislumbrada por Marx sofre da mesma lateralidade, ou seja: apenas a supressão do homem da terra talvez pudesse estabelecer o equilíbrio para uma convivência não harmônica mais sustentável.

PN - Se um mundo com religiões é tão feio assim, que dizer do mundo onde vigoram a ciência e o capital? É mais bonito?

NA – Considero o corte feito aqui, profundamente oportuno. Os avanços da ciência e do capitalismo não redundam em benefício para os mais pobres da sociedade; possivelmente a mesma crítica se faz à face doentia do sistema religioso possa ser aplicada também ao capital e à ciência. Certamente que a religião assim como a ciência e o capital são (ou não) subprodutos da sociedade e reproduzem em suas manifestações todo o individualismo e a violência que impera nas relações sociais.

PN - Num mundo sem religiões, o que fazer quando aparecerem novos Bonhoeffers, Luther Kings, Gandhis, Schweitzers, Doroty Stangs, Madres Terezas, Dom Helders, com seus valores todos calcados em suas religiões? Vamos anatemizá-los? Se a religião é intrinsecamente ruim, que fazer a religião esquisita destes aí? O problema é mesmo da religião em si? Ela seria mesmo intrinsecamente má? Ou o buraco seria um pouco mais embaixo? Pense na ciência. Ela é intrinsecamente boa ou má? Nenhuma das duas. Bom ou mau é o uso que se faz da ciência. Você sabe que Einstein foi às lágrimas quando soube que a técnica de fissura dos átomos, desenvolvida teoricamente por ele, foi mais tarde usada para fabricar a bomba atômica. Culpa de Einstein? Óbvio que não! Da mesma forma a religião. O uso que se faz dela é que é uma desgraça. Por isso, meu mano, minha ênfase tem sido colocada em despertar a potencialidade positiva da religião. Claro que o outro lado desse trabalho é criticar a face destruidora da religião. Mas como ênfase, fico com a dimensão libertadora, fraterna, humana, divina, que há na religião. Resumindo: tenho sempre diante de mim a ambiguidade que envolve o fenômeno religioso, mas optei por enfatizar sua dimensão positiva. Não resta dúvida de que historicamente a religião tem sido vetor de tudo quanto é tipo de desgraça. Mas eu resisto a confiná-la a isso. Inclusive, o tal de Ópio Coisa Nenhuma foi cunhado com isso em mente. Não creio que a religião, enquanto fenômeno social e histórico seja intrinsecamente má. Os nomes que citei, por exemplo, são nomes de pessoas que viveram a vida toda dentro do ambiente das instituições. Pode conferir um por um.

NA - Dizer se as personalidades citadas acima realizaram suas ações movidas por valores espirituais ou religiosos, é algo que não posso precisar aqui, mas desconfio que suas motivações embora emanem de dentro de sistemas religiosos, se aproximam em muito da compreensão que Jesus tinha das relações humanas, de olhar para além das instituições para perceber o indivíduo.

- Estou consciente também, que nada no mundo é em si mesma boa ou má. Já disse isso várias vezes inclusive em minhas loucas aulas de teologia. O pecado não está na coisa e sim na forma como se lida com ela. Orar pode ser uma bênção ou uma maldição, a depender das intenções e motivações (que se veja a parábola do fariseu), comer demais pode ser pecaminoso beber demais, etc. Dessa forma, o mal talvez esteja nos extremos, que tanto pode ser a glutonaria ou o jejum rigoroso. - O texto discute a religião em sua face mais dogmática, fundamentalista, fanática e neurotizante. Na prática o texto visa provocar uma discussão acerca da religião que se tem disseminado, especialmente a vertente do cristianismo. Não tive a pretensão de negar o valor de uma religiosidade sadia e voltada para a prática do bem.

PN - Se os fundamentalismos têm uma face feroz e destruidora da vida, seria assim com todas as religiões? Que dizer daquelas que não exigem militância e nem evocam deuses e demônios? E que dizer das religiões ágrafas, que não exigem adesão nem fazem proselitismo?

NA- Concordo plenamente que ao discutir religião precisamos ter em mente que lidamos com um universo bastante extenso. Mesmo as religiões que comumente poderíamos enquadrar como deletéria apresenta suas exceções; nem todo mundo queimou bruxas, nem todos praticaram a inquisição, nem todo cruzado era cruel, nem todo fundamentalista é odioso, e assim por diante. Da mesma forma, há religiões que vivenciam o pacifismo em suas práticas, que não fazem proselitismo e não condena ninguém ao inferno pelo fato de não seguir seus preceitos.

PN - Se a supressão da religião é condição para um novo mundo, por que os socialismos históricos que empreenderem essa supressão foram sistemas tão tirânicos?

NA – Estou convencido de que a extinção da religião não criaria um paraíso na terra, as mazelas do mundo têm outras fontes iguais ou ainda mais cruéis que a religião. Os socialismos históricos reproduziram em seus sistemas com roupagem diferente, os mesmos dogmas e doutrinas que fizeram da religião instrumento de opressão e dominação. Ou seja, os socialismos foram religiões seculares, com seus deuses templos e cultos.

PN - Nos países "desenvolvidos", onde a religião decresce a cada dia, as taxas de homicídio estão lá em baixo. Mas por que as taxas de suicídio são as mais elevadas do mundo? Por que será?

NA - Quanto às taxas de suicídio ser alta em países onde a religião decresce, não é possível estabelecer aqui sem maiores elementos, que relação existe ou deixa de existir com a ausência da religião, existem diversas variantes que precisariam ser consideradas para que se pudesse considerar se existe ou não influencia da redução da influência da religião na vida das pessoas que praticam suicídio nesses países.



[1] Saviani se apropria da “Teoria da Curvatura da Vara” de Lênin e aplica ao processo de tentativa de ajustes da educação da seguinte forma: “quando a vara está torta, ela fica curva de um lado e se você quiser endireitá-la, não basta colocá-la na posição correta. É preciso curvá-la para o lado oposto” Saviani, Dermeval. Escola e democracia. 32. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 1999 p.48-49).

[2] Paul Ricouer. Citado por Paulo Nascimento in: O arraiá da IBP e o Reino de Deus. Disponível em: http://opiocoisanenhuma.blogspot.com/

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quinta-feira, junho 30, 2011

IMAGINE... QUE NÃO HÁ RELIGIÕES!

A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil." (Sêneca)

Já faz algum tempo, que em uma das minhas crises, escrevi um texto que intitulei de “UM MUNDO SEM RELIGIÕES”. Atualmente, diante dos últimos acontecimentos envolvendo a igreja brasileira, o recrudescimento dos conflitos religiosos no mundo e revendo esse texto, chego a pensar que apesar de ilusório, um mundo sem religiões pode ser um sonho que talvez valha a pena perseguir. Sei também que assim como eu, apesar de não admitir, muita gente também pensar assim. Na canção “Imagine” John Lennon ousou pensar em um mundo diferente e nos desafiou: “... imagine que não existam países, nada pelo que matar ou morrer, e nem religiões também...”. Em outras palavras um mundo menos institucionalizado, já que grande parte das mazelas do mundo é produto das instituições.

Jesus talvez seja o maior exemplo de que é possível viver em um mundo sem religião. Apesar de profundamente espiritual[1], ele não centrou a sua caminhada na observância de preceitos religiosos; não escreveu livros sagrados, não prescreveu doutrinas nem criou nenhuma religião. De certa forma, ele foi um iconoclasta, pois, em sua maneira de viver quebrou diversos preceitos fundamentais da religiosidade de seu tempo, tais como: aqueles ligados a purificação: perguntaram a ele: “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem pão” (Mateus 15: 2) Ele responde “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca isso é o que contamina o homem” (Mat. 15;11); a Lei relativa à observância do sábado: os fariseus perguntaram a Jesus: “Por que fazem no sábado o que não é lícito?” (Mc 2:24) e Ele responde: “O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado.” Mc 2:27; da obrigatoriedade do jejum: perguntaram a Jesus: “Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, e os teus discípulos não jejuam?”; então ele respondeu: “Ninguém põe um remendo de pano novo numa roupa velha; (...) Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque o vinho novo arrebenta os odres velhos e o vinho e os odres se perdem”. (Marcos 2,18-22).

Além disso, diferentemente dos judeus que subiam ao Templo para orar, Jesus se afastava dele e orava sozinho nos montes e em locais desertos como registra Marcos 1: 35 “Levantando-se de manhã muito cedo, ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava”; além disso, ele orientou os discípulos a agir da mesma maneira: “tu quando orares, entra no teu quarto, e, fechando a tua porta ora a teu Pai que está em secreto” (Mat. 6: 6) Ao ser questionado sobre o local correto de adoração, se em Jerusalém ou em Gerizim, disse: “A hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorarão o Pai (...) Vem a hora e já chegou em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João 4: 21-23) Na casa de Zaqueu ao ser questionado pelos fariseus que o acusava de ter entrado para ser hóspede na casa de um pecador (Luc 19: 7) Ele quebrou a regra da linhagem genealogica e afirma: “também este é filho de Abraão” (Luc. 19: 9)

A religião faz distinção entre puros e impuros, santos e pecadores, filhos de Deus e criaturas de Deus, entre salvos e perdidos; entre lugares sagrados e lugares profanos. Na religião, as pessoas existem para servir às divindades e manter as instituições.

Uma espiritualidade madura como aquela demonstrada por Jesus, olha para as pessoas e as acolhe, não faz distinção entre as pessoas, de forma que todos são iguais perante o Pai. Jesus viveu intensamente sua espiritualidade, sem se tornar um religioso. Ninguém foi mais espiritual do que Jesus, porque ninguém foi mais humano do que Ele. A religiosidade nos embrutece, a espiritualidade nos humaniza, de forma que religiosidade e espiritualidade seguem caminhos opostos: quanto mais espiritual a pessoa é, menos religioso se torna; a recíproca também é verdadeira, quanto mais religioso menos espiritual.

Atualmente, as religiões servem em parte para controlar a conduta moral da sociedade, cumprindo seu papel de aparelho ideológico, muito embora a conduta moral, nada tenha a ver com as religiões; ela é produto da espiritualidade endógena; de forma que quanto mais espiritual, mais humana, afetiva e mais compreensiva a pessoa se torna; ao contrário, o aumento da religiosidade torna os homens mais arrogantes, intransigentes e intolerantes com as falhas dos outros; a religião dissemina ódio, preconceito e fanatismo; em outras palavras: quanto mais “santo”, mais ranzinza, mais rabugento, odioso e intransigente.

Segundo o sociólogo norte-americano Phil Zuckerman[2] os países menos religiosos do mundo são mais éticos, justos, possuem baixa taxa de criminalidade e altos índices de qualidade de vida e igualdade entre as pessoas. Ao contrário, os países mais religiosos apresentam altos índices de desigualdade, criminalidade, corrupção e injustiça social. Em um artigo intitulado “Deus Nos Livre de um Brasil Evangélico” [3] Ricardo Gondim lista uma série de razões pelas quais o Brasil seria pior do que é atualmente: seria um país com menos cultura e sem respeito às liberdades individuais; mais preconceituoso, fisiologista e intolerante.

Mas alguém perguntaria: se houvesse um mundo sem religiões, ele seria melhor? Não tenho certeza, mas imagino que um mundo sem religiões, sem ideologias religiosas, teria mais espiritualidade, as pessoas teriam tempo para cultivar valores espirituais; teria menos guerras, já que grande parte das guerras tem motivação religiosa. Imagino que um mundo sem religiões teria menos sofrimento. Muitas das desgraças da humanidade aconteceram em nome de Deus e de idéias religiosas. Imagino que ele será mais tolerante; religião é um meio de alienação das pessoas que, entorpecidas e movidas pelo zelo excessivo, promovem a dor e o sofrimento alheio. Um mundo assim, não seria perfeito, mas teria menos ódio, mágoas, e rancores, menos discriminação, menos preconceitos, arrogância, superstições, obscurantismo, guerras, perseguições e fanatismo e mais respeito pelas diferenças. Por tudo isso, apesar de não passar de uma miragem, eu ainda insisto em imaginar a possibilidade de ... UM MUNDO SEM RELIGIÕES.


[1] Uso aqui a palavra espiritual no sentido de cultivo dos valores do espírito, da psique da dimensão humana que não se volta para o transcendente, para o mundo da religião

[2]Phil Zuckerman. Society Without God – What the Least Religious Nations Can Tell Us About Contentment" Traduzido por: Sociedade sem Deus – O que as nações menos religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação.

[3]Gondim, Ricardo. Deus Nos Livre de um Brasil Evangélico. Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&id=2400

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quinta-feira, junho 23, 2011

A ÚLTIMA UTOPIA BÍBLICA: PISTAS PARA UMA HERMENÊUTICA ESCATOLÓGICA

“É preciso sonhar sempre e recomeçar indefinidamente a mesma projeção para um futuro vislumbrado utopicamente” (José Comblin)

Talvez seja difícil de admitir, mas a Bíblia é essencialmente um livro de utopias. Sei muito bem os riscos que corro, pois o simples fato de dizer que alguma coisa na Bíblia é utopia soa como heresia, apostasia e desvio doutrinário. A dificuldade de admitir isso está no conceito que temos sobre o que seja utopia. Para os cristãos, utopia significa mentira, quimera, algo irrealizável, delírio, fantasia, lugar inexistente, portanto uma falsa promessa.

O Dicionário Houaiss define utopia como: “qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” Nesse sentido, pergunta-se: existe livro mais utópico que a Bíblia?

Em seu livro "A utopia" Thomas Morus cria um mundo simples e igualitário. Uma criação imaginária de um mundo ideal que descreve realidade não como ela é e sim como deveria ser.

Aprendemos desde cedo a ver a utopia como algo inatingível, distante e irrealizável, ilusão sonho irrealizável. Nada pode ser mais falso do que isso. Na lúcida opinião de Pedrinho Guareschi, a utopia deve ser vista como uma realidade ainda não conquistada, diz ele que é a “Esperança de que aquilo que não é, não existe agora, pode vir a ser, tornando realidade presente aquilo que precisa acontecer”[1]

Outro problema que limita o nosso horizonte hermenêutico é o fato de lermos a literatura bíblica sem considerar o gênero. Dessa forma lemos literatura apocalíptica como se fosse profecia; esperança escatológica como promessa e teologia como se fosse história. Assim, temos dificuldades em entender determinados textos. Embora não seja possível discutir as diferenças existentes, fica evidente que são gêneros distintos.

Que lugar deve ocupar a utopia na pregação da Igreja? Seria ela realmente “um não lugar” ou um “lugar ainda não?” A utopia é a “imaginação criadora”, que visualiza no presente um futuro ainda invisível, porém real, que enxerga a partir do presente, uma realidade possível de ser transformada ou pelo menos melhorada. Nesse sentido, é necessário reacender a imaginação utópica como um meio de transcender às limitações impostas pela dureza do tempo presente, crendo que o utopista é mais que um sonhador, é um visionário e que a utopia é mais que um sonho, é um ideal. Para Pedrinho Guareschi: “A utopia luta pela materialização de um desejo presente. Ela ‘projeta’, isto é, ‘lança adiante de si, as coisas que devem acontecer e poderão acontecer se o homem quiser. A imaginação utópica dá a luz o que já está presente no seio das coisas”[2]

Além disso, a utopia deve ser vista pela sua utilidade. Para que serve uma utopia? Devemos lembrar que o escatologista é antes e acima de tudo um utopista. A mensagem escatológica é eminentemente parenética, se volta para o encorajamento e para o consolo, de forma que o seu elemento basilar não é a certeza de que as coisas serão assim, mas a esperança de uma vitória final. Precisamos olhar para a pregação de Isaias se quisermos entender o sentido e a função da mensagem profética: “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus” (Isaias 40: 1) Pedro César Kemp Gonçalves assinala que: “A utopia se apresenta como aquilo que nos situa no inexistente, transcendendo ao dado concreto. Ela aplica–se à ausência de alguma coisa. Aparece quando há rejeição da realidade determinista, criando um projeto futuro onde se realizem os seus desejos e aspirações: um futuro que lhe sorria”.[3] O grande problema da pregação cristã é que ela pretende se apoiar na certeza, no absoluto e muitas vezes se torna um canal de frustrações e desesperanças.

Uma olhada ainda que superficial no texto bíblico revela que a utopia ocupa um lugar importante na caminhada de fé, afinal, a fé é possivelmente a maior das utopias que se pode alimentar na experiência cristã. A fé não se caracteriza por ser um lugar aonde se chega e sim por ser um jeito de continuar indo. Como diz Ed René Kivitz: “a fé é aquilo em nós que nos coloca em movimento[4]; em outras palavras: a fé é a única forma de se continuar andando quando o caminho acaba. Nesse sentido, a fé é a mais significativa das utopias, uma vez que só por ela é possível continuar andando em meio ás crises e desesperanças da vida. Segundo Eduardo Galeano, a utopia é isso, serve para eu não deixe de caminhar.

Dessa forma mesmo sem ter a pretensão se ser exaustivo, proponho olharmos para algumas utopias que emergem do texto bíblico. Dentre estas podemos citar:

A UTOPIA DA ETERNA MONARQUIA DAVÍDICA.

Uma das promessas mais contundentes da Bíblia afirma que não faltaria rei sobre o trono de Davi. “Tua casa e teu reino serão firmados para sempre diante de mim” (2 Samuel 7:16) Essa utopia foi confirmada pelo profeta Jeremias; a continuidade da monarquia davídica era uma garantia dada pelo próprio Deus, conforme a expressa a palavra profética: “Pois assim diz o Senhor: Nunca faltará a Davi homem que se assente sobre o trono da casa de Israel” (Jer. 33:17) Essa promessa alimentou os sonhos monárquicos do povo de Israel que vivia a segurança de sempre ter um rei no trono de Davi. O fim da realeza e ainda do povo para o exílio babilônico revelou que tudo aquilo não passava de uma grande utopia, serviu para andar, mas não teve cumprimento. Espiritualizar a mensagem atribuindo a Jesus o cumprimento dessa promessa não atende aos anseios do povo Judeu, que sonhava com uma volta aos tempos áureos de Davi e Salomão.

A UTOPIA DA REUNIFICAÇÃO DO REINO DE ISRAEL

A promessa de que Israel seria reunificado outra vez foi feita pelo profeta Ezequiel. “Farei deles um só povo na terra e será um só rei que os comande a todos. E nunca mais formarão duas nações, nem se dividirão para o futuro em dois reinos” (Ez. 37: 22). Não precisamos fazer muito esforço para saber que essa utopia, apesar de ter consolado e sustentado o povo no exílio, também não se tornou uma realidade, mas serviu para caminhar em meio à crise de desesperança que ameaçava o povo no exílio.

A UTOPIA DO MESSIAS RESTAURADOR.

Em meio à crise que se abate sobre o povo de Israel, com a perda da terra, a destruição do templo, o esfacelamento da realeza, é proclamada a vinda de um descendente de Davi para restaurar o reino a Israel. A escatologia pós exílica preconizava que “o Dia de Iahweh” haveria de vir, e que o reino davídico iria ser de novo restabelecido” [5] Toda a caminhada do povo de Israel foi pautada na certeza de que quando o Messias chegasse, ele “restauraria todas as coisas” Nas palavras dos apóstolos no caminho de Emaús: “nós esperávamos que fosse ele quem havia de remir Israel” (Luc: 24:21) Atos 1.6 registra a pergunta ainda sem resposta: “Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?”Muito bem, ainda que sejam possíveis reinterpretações capazes de fornecer novos sentidos para as expectativas frustradas, a idéia de um messias restaurador da monarquia em Israel permanece como uma utopia que permeia o imaginário do povo Judeu de forma inconclusa.

A UTOPIA DO NOVO ÊXODO.

A mensagem que emana dos profetas exílicos dá conta de que no retorno para a palestina, Deus faria um novo Êxodo, seria uma volta triunfante; rios brotariam no deserto e jardins no ermo. Tal promessa não se realizou; a volta para a terra foi marcada por crises, conflitos internos e trabalho duro para restaurar os muros e as portas da cidade. Como salienta Alfred Lapple: “Outrora, a travessia das tribos israelitas pelo deserto estivera aureolada de maravilhas. E o caminho de retorno do exílio foi vazio de prodígios. Não houve o triunfo sonhado nem a recepção festiva na pátria, como se esperava. A terra estava devastada, as cidades destruídas” [6] E mais ainda, que “O sonho de um novo reino davídico constituía uma utopia, que politicamente não era mais realizável”.[7] Louis Monloubou assinala que “Ezequiel, e, mais tarde, o Segundo Isaias (...) proclamaram oráculos que davam a esperança de uma restauração maravilhosa. Ora, a realidade do retorno foi muito inferior às predições. Não teria sido esta utopia não realizada do profetismo do fim do exílio um novo motivo de desencanto?”[8] Basta olhar os relatos dos que voltaram do exílio para ver que o novo êxodo foi uma utopia.

A UTOPIA DO PARAISO TERRESTRE.

O profeta Isaias no capitulo 65 afirma que Deus faria um paraíso na terra, no qual as pessoas não experimentariam o sofrimento “nunca mais se ouvirá nela choro nem voz de clamor” (v.19). Nela não há mortalidade infantil, já que “Não haverá nela criança que viva poucos dias” (v.20). Nele as pessoas morrem, mas gozam da longevidade; “aquele que morrer com cem anos será tido por jovem” (v.2). Lá haveria pecado, pois “o pecador que não conseguir alcançar cem anos será considerado amaldiçoado” (v.20). Nesse lugar o lobo e o cordeiro vivem em paz: “O lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi” (v. 25) e a serpente agora se alimenta de pó. E não adianta dizer que esse texto tem a ver com a Nova Jerusalém descrita em apocalipse 21, pois naquela, segundo a narrativa do apocalipticista: “não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor” (v.4) e nela não entrará pecadores. Para Jacir de Freitas Faria “o livro do Apocalipse faz uma grande inclusão, isto é, repete as páginas iniciais da Bíblia sobre o Paraíso Terrestre ao apresentar a utopia da Jerusalém Celeste”[9]. A esperança de um paraíso na terra sem as contradições descritas em Isaias está presente de forma indelével no inconsciente coletivo da raça humana, mas sejamos realistas: é uma lida e admirável utopia.

A UTOPIA DA PARUSIA IMINENTE.

“Pois o filho do homem virá na glória de seu Pai, com os anjos, e então recompensará a cada um segundo suas obras. Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino” (Mateus 16:27-28). Mateus 24 fala dos sinais da volta de Jesus; o versículo 30 é enfático: “Então aparecerá no céu o sinal do filho do homem, e todos os povos da terra se lamentarão e verão o filho do homem, vindo nas nuvens do céu, com poder e grande glória”, e depois reforçando o que fora dita em Mateus 16: 28, conclui: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam” (Mat. 24:34) A Igreja primitiva viveu a certeza de uma volta imediata de Jesus, e não se pode negar que havia base para tal espera. A volta não se deu no tempo esperado, as profecias foram revistas, mas a Igreja não deixou de caminhar.

A UTOPIA DO RETORNO INCERTO:

Depois da expectativa frustrada do retorno iminente de Cristo, a esperança foi revista e para um retorno num tempo incerto; sabe-se que Ele virá, mas não se sabe quando. O próprio texto bíblico fornece pistas conflitantes acerca do assunto. Depois de descrever os eventos que antecedem à volta de Jesus, afirma que apenas o Pai sabe o dia e a hora. Dessa forma, todas as gerações, desde o primeiro século até a presente data, viveram e morreram na certeza de que Cristo voltaria em seu tempo. Os sinais da volta de Cristo se repetem e se renovam em cada geração. Como não vivemos a geração anterior, acreditamos que tudo é inusitado e revelador. Nesse sentido, a volta corpórea de Jesus pode ser considerada como a última utopia bíblica, pois aponta para um “não lugar” para o qual se caminha. Não podemos afirmar que Jesus não virá; isso seria transformar a utopia em distopia.[10] Mas uma coisa é certa: a esperança da volta de Jesus é a mais bela e significativa de todas as utopias, e por ela vamos continuar a caminhada.

FONTES:

Läpple, Alfred. Bíblia Interpretação Atualizada e Catequese, Vol. 2. O Antigo testamento, São Paulo, Paulinas, 1978.

Monloubou, Louis. Os profetas do Antigo Testamento. Cadernos Bíblicos. São Paulo, Paulinas, 1986.

Faria, Jacir de Freitas. Juízes: utopia ou invenção de uma sociedade igualitária?

Guareschi, Pedrinho. Sociologia Crítica: Alternativas de Mudança. 20ª Ed. Porto Alegre, Mundo Jovem, 1989.

Gonçalves, Pedro César Kemp . Reflexões sobre a religião como utopia e esperança. São Paulo, Paulinas, 1985

Kivitz, Ed René. Outra Espiritualidade, São Paulo, Mundo Cristão, 2006

[1] Guareschi, Pedrinho. Sociologia Crítica: Alternativas de Mudança. Mundo Jovem, 1989, p. 121

[2] Ídem, p. 121

[3] Pedro César Kemp Gonçalves. Reflexões sobre a religião como utopia e esperança. p. 39

[4] Kivitz, Ed René. Outra Espiritualidade, São Paulo, Mundo Cristão, p. 186

[5] Lapple, Alfred, Bíblia Interpretação Atualizada e Catequese, Vol. 2. O Antigo testamento. São Paulo, Paulinas 1979, p. 161

[6] Lapple, Alfred. Op. Cit. p. 162

[7] Idem, p. 163

[8] Monloubou, Louis. Os Profetas do Antigo Testamento. Paulinas, 1986, p. 72

[9] Jacir de Freitas Faria. Juízes: utopia ou invenção de uma sociedade igualitária? Disponível em :http://www.bibliaeapocrifos.com.br/conteudo.asp?p=p000140

[10] Usada inicialmente por John Stuart Mill, a palavra “Distopia” é formada do prefixo grego (δυσ) "dis" traduzida por "estranho", "anormal", ou "mau" e (τόπος) "topos" lugar. Distopia, portanto, seria um "lugar mau" ou um “mau lugar”

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