terça-feira, junho 07, 2011

THEOSIS: A DEIFICAÇÃO DA HUMANIDADE (PARTE 4)

A DIVINIZAÇÃO DA HUMANIDADE E A GNOSE PATRÍSTICA

Os Pais da Igreja também falam de Gnose cristã, “esse saber escondido que regenera”, e precisando que “essa regeneração é uma experiência que se opera aqui em baixo” – seguindo o exemplo do Cristo, cuja Transfiguração ocorreu perante três Apóstolos, antes da sua morte21. De fato, se para alguns cristãos, essa “regeneração” terá lugar após a morte, no “outro mundo”, para toda a gnose, e a cristã em particular, ela terá lugar hic et nunc. Dirá Simeão o Novo Teólogo (Hino 17, 749): Em que momento, a não ser agora receberás tu a semente? Depois da morte dizes-me tu… em verdade tu estás na ilusão e no erro. Este momento agora é o tempo dos trabalhos. É aqui em baixo que eu me torno para ti a pérola aqui em baixo que eu sou o teu fermento e como um grão de mostarda (Citado por J.M. d’Andembourg, op. cit., p. 70.)

“Basta atentar brevemente na riqueza e complexidade da teologia dos Pais da Igreja oriental (Máximo o Confessor, Gregório Palamas, Simeão o Novo Teólogo, etc.) para nos convencermos do contrário. Além disso, na Igreja do Ocidente, alguns Pais seguiram perspectivas análogas, como os cristãos gnósticos Orígenes, Clemente de Alexandria e Irineu de Lyon, cultores da “verdadeira Gnose”, como eles próprios afirmavam por oposição à “falsa gnose” dos gnosticistas que seguiam uma gnose não cristã, na sua perspectiva. Fica claro que doutrina da deificação do homem não é um ensinamento exclusivo da Igreja moderna. Ao contrário, ela pode ser encontrada na história inicial do cristianismo, conforme atestam os documentos antigos.

No século dois, Irineu, bispo de Lion (cerca de 130-200 A.D), disse: "Se o Verbo se fez homem, o homem pode se tornar deus. (Irenaeus, Against Heresies, bk. 5, preface. apud Noel B. Robert L. Millet.) A seguir Irineus perguntou:

“Lançamos culpa Nele (Deus) porque não fomos feitos deuses desde o início, mas fomos primeiramente criados meramente como homens, e então mais tarde como deuses? Embora Deus tenha adotado esse curso de sua pura benevolência, para que ninguém possa acusá-Lo com discriminação ou mesquinhez, Ele declara, "Eu disse, sois deuses; e todos vós sois filhos do Altíssimo"... Pois foi necessário a princípio que a natureza fosse mostrada, então depois que aquilo que era mortal fosse conquistado e elevado em imortalidade. ( Ibid., 4.38 (4); compare 4.11 (2): "But man receives progression and increase towards God. For as God is always the same, so also man, when found in God, shall always progress towards God." apud Noel B. Robert L. Millet.)

Mais ou menos ao mesmo tempo, Clemente de Alexandria ( cerca de 150-215 A.D) escreveu: "Em verdade, digo, o Verbo de Deus se fez homem de modo que possas aprender de um homem como se tornar um deus." (Clement of Alexandria, Exhortation to the Greeks, 1. apud Noel B. Robert L. Millet.) Clemente também disse que: "se algum se conhece a si mesmo, ele conhecerá Deus, e conhecendo Deus se tornará como Deus... Dele é a beleza, a verdadeira beleza, pois é Deus, e então o homem se tornará um deus, desde que essa seja a vontade de Deus. Assim Heráclito estava certo quando disse: "Os homens são deuses, e deuses são homens."".( Clement of Alexandria, The Instructor, 3.1. See his Stromateis, 23 apud Noel B. Robert L. Millet.)

Ainda no século dois, Justino o Mártir (cerca de 100-165 A.D) insistiu em que no princípio os homens foram feitos como Deus, livres de sofrimento e morte", e que eles são, portanto, achados dignos de se tornarem deuses e tendo poder para se tornarem filhos do Altíssimo". (Justin Martyr, Dialogue with Trypho, 124 apud Noel B. Robert L. Millet)

Atanásio, bispo de Alexandria (cerca de 296-373 A.D), também afirmou sua crença na deificação em termos bem semelhantes:"O Verbo se fez carne a fim de nos capacitar a sermos deuses... Tal como o Senhor, revestindo-se de um corpo, tornou-se um homem, assim também nós homens nos deificamos através de sua carne, e daí em diante herdarmos vida eterna." (Athanasius, Against the Aryans, 1.39, 3.34 apud Noel B. Robert L. Millet.) Com fundamento em uma idéia da existência de uma natureza universal, conclui que o logos não assumiu simplesmente a forma humana em Jesus más que assumiu verdadeiramente a natureza humana, por isso, todos os seres humanos podem compartilhar a deificação num processo inverso.

A descida da pessoa de Cristo (katabasis) cria a condição pára que os seres humanos participem da ascensão (anabasis) por meio do esvaziamento (kenosis) do filho de Deus, a humanidade alcançou o direito de realizar a sua vocação inicial de theosis.

Assim é que Atanásio observou: "Ele se tornou homem para que fôssemos feitos divinos. (Athanasius, On the Incarnation, 54 apud Noel B. Robert L. Millet)

Finalmente Agostinho, bispo de Hipona, (354-430 A.D.) o maior os primeiros Pais cristãos, disse: "Mas ele próprio que justifica e deifica, pois por justificar ele os faz filhos de Deus. 'Pois Ele lhes deu poder para se tornarem filhos de Deus' (João 1:12). Se então fomos tornados filhos de Deus, nós também fomos feitos deuses." (Augustine, On the Psalms, 50.2. Augustine insists that such individuals are gods by grace rather than by nature, but they are gods nevertheless. apud Noel B. Robert L. Millet)

Todos os cinco escritores acima citados não eram apenas cristãos ortodoxos, mas mais tarde foram reverenciados como santos. Três deles escreveram nos cem anos posteriores ao período dos apóstolos, e cinco acreditavam na doutrina da deificação. Essa doutrina era parte do cristianismo histórico até relativamente pouco tempo atrás, e continua sendo doutrina importante de algumas igrejas ortodoxas orientais.

Um dos princípios fundamentais da ortodoxia no tempo dos pais da igreja era o reconhecimento "da história do universo como a história da divinização e salvação". Como resultado os primeiros pais cristãos concluíram que "porque o Espírito é verdadeiramente Deus, somos verdadeiramente divinizados pela presença do Espírito". (Richard P. McBrien, Catholicism, 2 vols. (Minneapolis: Winston Press, 1980), 1:146, 156, emphasis in original. apud Noel B. Robert L. Millet )

O Dicionário de Teologia Cristã de Westminster contém o seguinte em artigo intitulado: "Definição"

Deificação (do grego theosis) é para a ortodoxia o alvo de todo cristão. 'O homem', de acordo com a Bíblia, 'foi feito à imagem e semelhança de Deus'. é possível ao homem se tornar como Deus, tornar-se deificado, tornar-se deus pela graça. Essa doutrina é baseada em muitas passagens de ambos, Novo e Velho Testamentos (e.g. Ps.82 (81). 6; II Pedro 1,4), e é essencialmente o ensinamento tanto de São Paulo, embora ele tenda a usar a língua de sua adoção filial (cf. Rom.8.9-17; Gal.4:5-7), e o Quarto Evangelho (cf. 17:21;23).

O estilo de II Pedro é usado por Santo Irineu, em sua famosa frase, "se o Verbo se fez homem, assim também os homens podem ser feito deuses." (Adv. Haer V, Pref), e se torna padrão na teologia grega. No século quatro São Atanasius repete Irineu quase que palavra por palavra, e no século quinto São Cirilo de Alexandria diz que nós nos tornaremos filhos "por participação" (grego methexis). Deificação é a idéia central na espiritualidade de São Maximus o Confessor, para quem a doutrina é o corolário da encarnação: "Deificação, rapidamente, é o cerco e o cumprimento de todos os tempos e eras", e São Simeão o Novo Teólogo no fim do século dez escreve: " Ele que é Deus por natureza fala com aqueles a quem ele fez deuses pela graça, tal como um amigo conversa com seus amigos, face a face".

Finalmente, deve se notar que a deificação não significa absorção de Deus, uma vez que a criatura deificada continua indivíduo e distinto. É o ser humano completo, corpo e alma, que é transfigurado no Espírito na aparência da divina natureza, e a deificação é o objetivo de todo cristão. (Symeon Lash, "Deification," in The Westminster Dictionary of Christian Theology, ed. Alan Richardson and John Bowden (Philadelphia: Westminster Press, 1983), 147-48. apud Noel B. Robert L. Millet)

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segunda-feira, junho 06, 2011

THEOSIS: A DEIFICAÇÃO DA HUMANIDADE (PARTE 3)

A DIVINIZAÇÃO DA HUMANIDADE NA PREGAÇÃO PATRÍSTICA

A expressão petrina “Co-Participantes da Natureza Divina”, embora única em termos de formulação expressa colocando de forma clara a possível participação humana na Divindade, pode parecer estranha aos ensinos do Novo Testamento, no entanto conforme já destacamos, encontra o seu paralelo teológico principal na tradicional doutrina da “Filiação Divina” através do batismo na morte de Jesus. Os Pais Apostólicos não tiveram dificuldades em aceitar este ponto de vista, pelo menos é o que se verifica na pregação de alguns representantes da patrística. A pregação de Irineu expõe esta verdade de forma teológica, onde baseia a filiação espiritual na encarnação, ou seja, na “Humanização da Divinda­de”, conforme lemos: “Esta é a razão pela qual o verbo se fez homem, e o filho de Deus, filho do Homem: para que o homem unindo-se ao verbo e recebendo assim a adoção, filial se tornasse filho de Deus (Adv. HAER III, 19,1, apud COTHENET, 1986, p.65)

A idéia da adoção filial a partir da união com Cristo na pregação de Irineu e muito mais que simples experiência espiritual, assim como a encarnação do verbo foi manifestado na concretude não sendo apenas uma expe­riência docética, que afirmava que Cristo não possuía um corpo carna1, material e que não seria possível a união da Divindade com a humanidade. Tal pensamen­to foi retomado na teologia de Apolinário, pensamento este analisado por Hagglund da seguinte maneira: “Apolinário combatia vigorosamente a idéia que os elementos Di­vino e humano se combinaram em Cristo, que o logos simplesmente se revestiu-se da natureza humana e ligou-se a ela de modo espiritual. (HAGGLUND, 1986, Pg.76)

Esta tese se torna mais forte ainda na pregação de Orígenes, onde encontramos relatos claros nos escritos do apologista de Alexandria acerca do tema. Orígenes fala expressamente da deificação do homem nos seguintes termos: “Com Jesus a natureza Divina e a natureza humana, começaram a se entrelaçar, a fim de que a natureza humana, pela participação na Divindade, fosse DIVINIZADA, não em Jesus somente, mas também em todos aqueles que com fé adotar o gênero de vida que Jesus ensinou e que eleva a amizade a Deus e a comunhão com Ele quem quer que viva segundo os preceitos de Jesus”(apud. COTHENET, op. Cit. p.65)

Não há dúvida de que Orígenes aceitou plenamente a doutrina da Divinização da humanidade como natural e necessária ao processo de salvação está em Cristo e participar da natureza do Senhor é conforme seu pensamento o entrelaçamento entre Cristo e o fiel que o coloca em contato com o processo de participação na Divindade de forma defi­nitiva, esta doutrina foi pregada e aceita pelos apologistas da Igreja.

Da mesma forma Santo Atanásio se apoiou na doutrina da Divi­nização da humanidade para refutar os arianos e sua negação da huma­nidade de Cristo e não é muito pensar nesses termos uma vez que na época esta doutrina havia se tornado tradicional no pensamento de Atanásio a Divinização da humanidade é algo certo e irrefutável, interessante é o seu discurso apologético doutrinário para reafirmar a divindade de Cristo: “Como poderia ele divinizar-nos, se ele mesmo não fosse Deus? a união (da encarnação) foi feita assim para que a natureza Divina se unisse a natureza humana e para que a salvação do homem e a sua divinização fossem asseguradas”. COTHENET, Op. Cit. p.65)

As afirmações e as convicções de Atanásio são de que a Divindade de Cristo é a garantia da nossa divinização, assim como a ressurreição de Cristo e a garantia da nossa ressurreição. Ao refutar os Arianos, Atanásio conclui que a Divinização dos fiéis está assegurada na nossa identificação com Cristo, que Ele de­nomina união entre a natureza humana e a natureza de Cristo. A con­cepção de “Divinização de Cristo” pode ser compreendida pela verifi­cação da posição de Orígenes acerca da relação das duas naturezas em Cristo: A alma de Cristo no seu estado puro, sua alma ingressou em seu corpo, e assim a natureza Divina e a humana se uniram. Mas, dizia Orígenes: “O lado físico de cristo foi progressiva­mente absorvido pelo Divino de modo que deixou de ser homem”. (HAGGLLUND, Op. Cit p. 55 20) A posição de Orígenes nesse sentido fala claramente de uma possível divinização da humanidade na pessoa de Cristo ao afirmar que “o lado físico de cristo foi progressivamente absorvido pelo Divino”, se assim for Cristo seria o protótipo de uma nova realidade na dimensão humano-Divino.

São Thomas de Aquino também fez uso deste argumento na sua teologia da graça. Aquino não demonstra qualquer dúvida ao afirmar: “A graça é uma verdadeira participação na natureza Divina, não enquanto pode ser atingida pela razão como ser subsistente, mas enquanto natureza de Deus uno e trino. A graça nos torna assim participantes da vida íntima de Deus”. (COTHENET, Op. Cit. p. 65 )

Fica claro que os Pais Apostólicos manifestaram claramente a convicção da participação do homem na natureza Divina, No entanto, tudo nos leva a crer que esta convicção foi abandonada pela pregação posterior, ficando esta verdade oculta nos escritos e na pregação do cristianismo ortodoxo atribuindo um tom mais subjetivo ao conteúdo teológico da nossa participação na filiação com Deus. Ao comentar o texto de II Pedro em pauta, a Bíblia de Jerusalém não deixa dúvida quanto ao propósito da abordagem petrina: Em nota lemos: “Expressão de origem grega, única na Bíblia, e que causa sur­presa pelo seu tom impessoal. O apóstolo a empregou aqui para exprimir a plenitude da vida nova em Cristo, isto é, a comuni­cação que Deus faz de uma vida que só a ele pertence”. (Bíblia de Jerusalém, Comentário em Nota de Rodapé de II Pedro1:4,) A nova vida em Cristo, é muito mais que uma concepção teológica destituída de implicações concretas. Para o escritor a nova vida em Cristo nos torna Co-participantes da natureza Divina. Com razão os exegetas da Bíblia de Jerusalém reconheceram que “Está aqui um dos pontos de apoio da doutrina da Deificação dos pais gregos”. (Bíblia de Jerusalém, Nota citada). Conforme descrito a concepção de uma possível “Deificação” marcou a pregação dos pais gregos que viram em II Pedro 1:4, não uma doutrina nova e sim a ratificação explicita daquilo que os outros escritores do Novo Testamento afirmavam em categorias mais próximas ao pensamento hebreu. A doutrina Petrina da Co-Participação na Natureza Divina estabelece uma ligação entre a filiação espiritual com a idéia teológica do novo nascimento e com o pensamento Paulino da nossa união com Cristo conforme lemos: “...o que se une ao Senhor é um só espírito com ele”. (I Cor. 6:17, Versão da Imprensa Bíblica)

Para Orígenes, “existe no corpo um logos spermaticos que é o germe do ressuscitado (…) e ele insiste sobre o nascimento do Cristo em cada um de nós, como em Maria, pois o Cristo deve crescer na nossa alma, como Ele cresceu em Maria. Simeão o Novo Teólogo afirma que os santos se casam com Deus e concebem o Logos nas suas entranhas (…) Para os Pais da Igreja do Oriente (…) para os teósofos cristãos no Ocidente, a verdadeira teologia é a que trata deste novo nascimento. E também para os místicos, que como Angelus Silesius afirmam que É em ti que Deus deve nascer. Se Cristo nascer mil vezes em Belém e não em ti, tu ficarás perdido para sempre” (Denis Labouré, op. cit., p. 8. Merece referência ainda, uma excelente tradução portuguesa do Peregrino Querubínico, com o título de A Rosa sem porquê (Vega), da autoria, entre outros, de José Augusto Mourão.

Por isso, na seqüência do que foi afirmado na globalidade da mensagem do Novo Testamento, a divinização é um movimento ascensional em direção a Deus, teândrico, o Homem é inseparável da Encarnação – descida do Deus/Cristo na carne. Isto é afirmado por Pais ocidentais como Irineu e Agostinho – Dieu s‘est fait homnme pour que l’homme devienne Dieu. Citado por Denis Labouré, Le Christiannisme comme alchimie, op. cit., p. 5.

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domingo, junho 05, 2011

THEOSIS: A DEIFICAÇÃO DA HUMANIDADE (PARTE 2)

1. O CONFRONTO DA TEOLOGIA PETRINA COM OS PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS CONTEMPORÂNEOS

O conteúdo teológico referente a uma divinização da natureza humana encontra suas bases na filosofia grega, conforme podemos detectar nos escritos contemporâneos ao escritor de II Pedro. Ao analisar de forma introdutória este ponto da teologia de II Pedro, Michel Green escreve: “Co-Participantes da Natureza Divina”, certamente parece surpreendente, mas a forma da expressão já tem um paralelo no decreto de estratonicéia em honra a Zeus e Hecate (Deissman Bible Studies, pp. 360 ss, apud, ” (GREEN, 1983, p.23.) e ainda: “Além disso, contemporâneos tais com Filo Estobeu e Josefo empregam linguagem semelhante

De acordo com o autor a expressão contida na teologia de II Pedro pode ser inusitada dentro dos escritos do Novo Testamento, mais parece estar dentro da compreensão e expectativa do homem do I século, e carrega consigo uma gama expressiva da esperança dos contemporâneos do apostolo, da leitura da literatura extra bíblica se verifica que este tipo de linguagem era moeda corrente no século I e Pe­dro podia ter usado para seu propósito” .

A abordagem petrina referente a participação do cristão na natureza divina, reflete a meta do apóstolo de produzir um texto apologético contra as idéias emergentes no meio da comunidade de fé, entre estas idéias se destaca o Gnosticismo, mas não se pode negar também que as idéias filosóficas oriundas das escolas tradicionais tenham sido motivo das preocupações do escritor. É possível que as posições teológicas presentes na II carta de Pedro reflitam a necessidade de apresentar uma abordagem apologética cristã para questões das quais se ocupavam gnósticos e filósofos contemporâneos. Green concorda com este ponto de vista ao afirmar:

A abordagem Petrina de Co-Participantes da natureza divina é: “Um ataque, frontal contra as pressuposições estóicas e platô­nicas, que ensinavam, respectivamente, que pela Phusis (nature­za) ou pelo nomos (lei), o homem ficava sendo participante do Divino (...) diz o nosso autor; é pela graça, pelas promessas do evangelho, que isto é realizado”. GREEN,1983, p.23.)

Fica evidente que o a abordagem do tema tem claramente um caráter apologético analisa do ponto de vista da fé cristã a forma como o processo de Divinização ocorria, sem, no entanto formular uma negação da possibilidade real da ocorrência do processo divinatório.

Para Kasemann este texto reflete a influência do pensamento Helenístico sobre a teologia do autor não representando, no entanto uma posição teológica corren­te no pensamento cristão, a doutrina acerca da presença humana na Divindade. Ele argumenta da seguinte forma: “Seria difícil achar no Novo Testamento uma frase (...) que mais claramente marca o relapso do Cristianismo para o dualismo Helenístico” (Essays On New Testament Themes, ps. 179-180, apud GREEN, 1983, p.24).

A posição de Kasemann aponta para uma espécie de “Interpolação Teo1ógica”, deste ponto de vista na Teologia de II Pedro, uma vez que, a Divinização da Humanidade é algo possível no pensamento Hele­nístico, porém não afirmado na Teologia Neotestamentária; assim Pedro estaria influenciado por outras doutrinas, esta possibilidade parece pouco provável, se considerarmos que o prop6sito da carta é exatamente combater tais influências no seio da Igreja. Para Green: “Kasemann supõe que o alvo de II Pedro é aquele dos pagãos, ou seja: Escapar do mundo físico (e corruptível) para ganhar uma natureza espiritual (e divina) (...). Deixa de reconhecer que esta participação na natureza Divina não é o alvo. “Mas sim o ponto de partida da experiência Cristã: e o mundo do crente escapa não é o universo físico, mas, sim, o mundo no sentido Joanino do homem em desarmonia com o seu criador”. (GREEN, Op. Cit. p. 24, Nota de Rodapé)

Da leitura de documentos contemporâneos, torna-se possível a­firmar que a doutrina petrina de uma possível participação do ser humano na natureza divina, não é uma abordagem estranha e aponta para uma realidade muito mais consistente do significado da nossa filiação com Deus, sinaliza com uma possibilidade que permeou a esperança do apóstolo Pedro da nossa identificação com Cristo. Muitos termos da nossa teologia poderiam ganhar sentido à luz dessa verdade. O certo é que esta expectativa esteve muito mais presente, muito mais forte na mente do homem do I e II séculos do que possa parecer em princípio.

2. PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS: A HUMANIZAÇÃO DA DIVINDADE.

Uma vez que a humanização da Divindade se manifestou na carne e o filho de Deus se fez participante da natureza humana, a nossa união com ele conduz a um processo de identificação e participação da natureza Divina. O princípio que rege a theosis, é o entendimento de que Deus tornou-se homem para que os homens pudessem se tornar Deus. ‘Deus já foi assim como somos hoje, e é um homem exaltado, e está entronizado nos céus distantes Se o véu fosse levantado hoje, e o grande Deus que sustem este mundo em sua órbita, e segura todos os mundos e todas as coisas através de Seu poder, se mostrasse ao homem, - quero dizer, se você o visse hoje, você o veria como um homem semelhante a você mesmo em toda Sua pessoa, imagem, em verdadeira forma de um homem”. REINOLDS, MILLET, Cristianismo Nos Últimos Dias Dez Questões Básicas (M&R-98) Provo, Utah: FARMS, . P. N/A

Verdade é que a divindade se fez humanidade pela encarnação de Jesus Cristo, aquilo que parecia impossível devido à imanência de Deus e impossibilidade do homem, foi rompido pela vontade de Deus, que num gesto de extrema contradição deixa os privilégios inerentes ao ser Divino, para assumir a humilhante forma humana e conforme o conteúdo central da teologia do Novo Testamento, para nos fazer filhos de Deus, o que é registrado com extrema nitidez pelo evangelista são João “Deu-lhes o poder de se tornarem Filhos de Deus”. João 1:12b O conteúdo desta filiação e a natureza dessa nossa participação na “Família de Deus”, tem merecido argumentos- os mais diversos possíveis. Realidade é que Jesus se fez irmão pela inteira aceitação da humanidade. E conforme expressa o Credo Niceno, Cristo é completa­mente homem e completamente Deus. HAGGLUND, 1986 pp.75-80

A tese fundamental é a seguinte: se Cristo sendo Divino assumiu a natureza humana a união a Cristo do fiel o conduz em uma caminhada em direção a Divinização do “corpo de Cristo”, composto aqui pelos salvos, a pessoa de Cristo atrai os homens; e os capacita com o seu poder a corresponder, e promessas especiais são dadas, a rigor, são concedidas através da glória e virtude de Cristo (...) a nós foi dada a promessa de partilharmos de algo da sua excelência moral nesta vida, e da sua glória na vida futura ( ... ) A agência tríplice das promessas, do poder e da pessoa do Senhor, seguram o homem e os tornam Co-Participan­tes da própria natureza de Deus” GREEN, Op. Cito pp. 60-61 (10)

A garantia para o fiel de participar da natureza Divina, re­pousa na vitória de Cristo, estabelecendo no fiel a presença do Divino no humano, o que conforme a teologia paulina determina a morte do velho homem para que um novo homem (novo ser), passe a existir. O apóstolo se expressa assim:

“Fomos pois sepultados com ele pelo batismo na morte, para que como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida”.( Romanos 6:4 )

O argumento levantado aqui é que morte e res­surreição em Cristo é muito mais que uma experiência subjetiva de ca­ráter teológico representa a transformação da natureza humana pecamino­sa, numa nova natureza; a mesma da qual participa Cristo. Este ponto de vista e reforçado por Green ao abranger temas da teologia ortodoxa normalmente afirmadas em conceitos fechados, sem uma implicação prática, menos abstrata e mais concreta: deve-se concluir que “Co-Participantes da Natureza Divina correspondente em roupagem gregas a “nascer de novo”, “ser o templo do Espírito”, “estar em Cristo”, “ser a habitação da Trinda­de”(GREEN, Op. Cito pg.23). Pode-se afirmar que a humilhação da Divindade atrás de Cristo, abre as portas de acesso a Divinização os fiéis, portanto herdam a natureza Divina ao tornar-se participante de Cristo, que ressurreto dos mortos habita no salvo e estabelece nele as Mar­cas da presença da Divindade, Paulo reflete urna convicção bastante próxima ao afirmar:

“Já estou crucificado com Cristo, e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne Vivo na fé no Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim”. Gálatas 2:20

A Teologia da Divinização da humanidade, segundo o autor de II Pedro estabelece urna dimensão muito mais íntima entre os fiéis e Deus tirando a filiação duma dimensão puramente espiritual e encarnando os valores Divinos, pela presença de Cristo, conduzindo a natureza humana a urna “espiritualização”, pela assimilação da natureza de Cristo em direção a urna completa divinização da humanidade.

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