terça-feira, novembro 02, 2010

A LENDA DO HOMEM QUE PLANTAVA FLORES

Há muitos e muitos anos, a terra estava dominada por espinhos, cardos, abrolhos e todo tipo de plantas venenosas. Nesse tempo, em uma região pobre da Palestina apareceu um homem que decidiu viver para plantar flores. Flores lindas, de todas as cores, tipos e tamanhos. Por onde passava não importando a quem pertencesse a terra, ele enchia generosamente as mãos de sementes e lançava ao solo. As sementes germinavam e produziam lindas flores e ele cuidadosamente regava cada uma delas. Mesmo quando a terra parecia seca e infértil, e as pessoas diziam: não plante ai! Não vale a pena, essa terra não produz nada! Mesmo assim ele insistia em plantar. Cultivava o solo, adubava a terra, escolhia a semente certa e fazia brotar no meio do deserto um belo jardim. Enquanto muitos cultivavam espinhos, ele insistia apenas em semear flores pelo puro prazer de vê-las florir. Más o jardineiro da Palestina não queria plantar flores sozinho. Certo dia ele escolheu doze homens e com muita calma ensinou a plantar flores.

Um dia porém, algo inesperado aconteceu. Cansados do cheiro das flores, do perfume que exalava pelos campos, pelas cidades, pelas casas; que invadia os templos e tornava a vida das pessoas mais perfumadas; algumas autoridades decidiram que era hora de fazê-lo parar. Primeiro tentaram convencê-lo a parar de plantar. Não conseguiram, depois tentaram destruir as flores, matar as sementes, nada! Tentaram tudo sem sucesso, e então decidiram que o único jeito era matar o jardineiro. Assim foi. Prenderam-no, julgaram e o condenaram a morrer numa cruz.

Acontece que após a morte, o jardineiro apareceu aos seus auxiliares, entregou-lhes as sementes e deixou uma ordem. Disse ele: plante flores, especialmente a “a flor do amor”. Sigam pelo mundo afora e transformem o mundo em um belo e imenso jardim.

Depois dessa ordem, os auxiliares do jardineiro se espalharam pelo mundo, levando consigo as sementes das flores deixada pelo mestre jardineiro, carinhosamente chamada por ele de “flores do Evangelho”.

Mas algo começou a mudar. Com tempo as sementes das “flores do Evangelho” foram misturadas com outras sementes que os ajudantes do jardineiro traziam consigo, e foram ficando cada vez mais escassas. Então eles começaram a substituí-las por sementes diferentes: primeiro vieram as “sementes do moralismo religioso” em substituição à “semente da ética”. E assim, a cada dia se via por toda parte canteiros cheios de moralismo enquanto ficava mais difícil encontrar “flores de ética”. Depois trocaram as “sementes liberdade” por mudas de “dogmas”, assim, em lugar de liberdade passaram a cultivar os dogmas, e a tolerância deu lugar à intransigência. Trocaram flores por espinheiros, e a raríssima “Flor do Amor” foi substituída por outra chamada “Flor do Ódio Religioso”. Sementes de preconceito, de intolerância de julgamentos, de legalismos, de fanatismos, foram ocupando espaço nos canteiros do evangelho. As flores da fé cederam lugar para grandes sementeiras de superstição, de culpa e de neurose. “sementes de esperança” foram substituídas pelas “flores do medo”, de disputas doutrinárias e de facções. Com o tempo, as “Sementes do Evangelho ficaram esquecidas, escondidas em meio aos espinhos, sufocadas no meio dos abrolhos, de forma que plantar e colher as flores do verdadeiro Evangelho se tornou uma tarefa difícil e “espinhosa”. Além disso, as pessoas passaram a comercializar todo tipo de flor como se fossem “flores do Evangelho” e ainda um tipo de “Flor do Evangelho” Pirateada, e muita gente foi enganada e comprou.

O tempo passou. Um dia, os auxiliares do jardineiro resolveram voltar aos lugares por onde passaram, e viram as sementes que haviam plantado as flores que brotaram e como o jardim estava diferente. Resolveram então ler o “Manual do plantador de Flores” deixado pelo jardineiro e tomaram uma decisão. Disseram eles: Não foi isso que o mestre nos mandou plantar! Vamos arrancar os espinhos, destruir os cardos e abrolhos e destruir as flores que plantamos. Vamos voltar a plantar a verdadeira “semente do evangelho”, vamos voltar a plantar a “Flor do Amor”. Quando olharam para suas bolsas, perceberam que elas ainda continuavam cheias de “Sementes do Evangelho” e assim retomaram a caminhada semeado e florindo a terra, exatamente como fazia no passado o Jardineiro da Palestina.


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segunda-feira, novembro 01, 2010

UM TÚMULO PARA O CRISTIANISMO, OU O EPITÁFIO DA IGREJA?

“Se a Igreja continuar a fazer o que está fazendo atualmente, e a ser o que é hoje, então não terá futuro. Suas belas igrejas e magníficas catedrais tornar-se-ão monumentos sepulcrais, túmulos de Deus e do cristianismo”.[1]

A frase acima foi escrita por Adolfs Roberts em 1967, ou seja, a exatos 43 anos, e já trazia em seu bojo preocupações inquietantes em relação ao futuro da Igreja. A frase lapidar representa em última análise um perigoso vaticínio para os futuros sonhos do cristianismo. Um olhar sobre a Igreja nesse começo de milênio, deve nos levar a uma corajosa pergunta, qual seja: o que esse prognóstico eclesiástico tem a ver com o nosso tempo?

Nos últimos dias tenho recebido dezenas de E-mails, que acredito já cheguem a uma centena, todos eles frutos de um intenso debate travado na mídia e trazem juízos de valores divergentes sobre temas que a meu ver não mereciam tanta atenção. Tenho tentado não me envolver nessa polêmica, que em síntese diz respeito apenas às filigranas da religião e que de certa forma nos entorpecem e nos levam a fechar os olhos para os reais problemas que afligem a sociedade. Tenho me perguntado sem resposta: Que importância tem os assuntos tratados em nossas Igrejas, muitos com acaloradas emoções, para aqueles que vivem fora do gueto no qual a igreja se fechou? Qual a contribuição que a igreja está fornecendo para tornar esse mundo melhor.

Muita gente tem se perguntado: por que será que atualmente as pessoas não querem mais ficar na Igreja? A resposta é simples, ela tem se tornado um ambiente inóspito, de censura, recriminação e seu discurso iminentemente castrador. Dessa forma, as pessoas são atraídas para a igreja, mas com o tempo, cansados, machucados, decepcionados e feridos, se afastam e muitas vezes para sempre.

Desde que Nietzsche proclamou a morte de Deus, e isso já faz muito tempo, talvez seja a hora de anunciar outro funeral. Parafraseando o filósofo diríamos - Para onde foi a Igreja? já lhes direi ! Ela se suicidou – A Igreja está morta! A Igreja continua morta! Ela se matou![2]

Talvez não tenhamos nos apercebido mas a igreja em sua versão católico/evangélica chegou ao início do terceiro milênio de sua caminhada. Já não se trata de uma comunidade desconhecida nascendo na palestina do século I, nem daquela igreja poderosa que carregava nas costas (a exemplo do Atlas grego) os destinos de toda uma Europa medieval. Os tempos são outros; novos problemas e dilemas se apresentam e desafiam a igreja a demonstrar os seus valores e a marcar o mundo no qual está inserida, não com velhos discursos baseados em textos antigos, e sim com uma práxis relevante, viva e atual. Acontece que apesar do crescimento numérico, a Igreja não consegue moldar o mundo com os valores éticos ensinados por Jesus.

O desencanto tomou conta de mim e resolvi reler alguns textos que há algum tempo escrevi e aos quais recorro aqui. Em um dos meus artigos escrevi.

“Chegamos ao início do terceiro milênio; acredito que o cristianismo enfrenta agora talvez o seu maior dilema, qual seja: o desafio de reler a sua trajetória desde o seu nascedouro até aqui; a tarefa de fazer uma re-visão de sua missão no mundo e buscar uma via alternativa para o futuro”.[3]

Pois bem, diante dos últimos acontecimentos envolvendo a Igreja evangélica em sua relação com a política no Brasil, começo a duvidar que ela seja capaz de realizar essa missão. Confesso, com um certo desânimo, que me sinto frustrado com o passado, desencantado com o presente e pessimista em relação ao futuro. Os últimos acontecimentos mostram uma igreja envolta em uma situação psicanalítica curiosa, para não dizer preocupante. A guerra de vaidades travada no meio evangélico especialmente entre os telepastores e veiculada em emails, blogs, TVs, e similares, e as muitas denúncias envolvendo padres católicos e os escândalos éticos envolvendo pastores, dão conta de que a igreja oscila no limite entre a lucidez e a loucura, e de certa forma deixa aparecer a nudez que por muito tempo tratou de esconder.

A razão desse desconforto se encontra em uma certa hipocrisia sustentada por tabus e preconceitos cultivados ao longo do tempo e mantidos por meio de chantagens emocionais, recompensas e castigos. não é de se estranhar que na atualidade, a igreja tenha perdido a sua relevância e já se verifique um certo desalento em relação à religião enquanto instituição religiosa”.[4]

Ao longo de sua história, o cristianismo fez opção pelo moralismo casuístico e vem ocupando o tempo com minudências e pormenores da religião, em outras palavras, em coar mosquitos. Para ilustrar o que digo, transcrevo aqui parte de texto que escrevi sobre o assunto:

A história da Igreja está recheada de atitudes que muitas vezes consome as energias e enfraquece a sua influência no mundo, a exemplo da luta histórica da Igreja para perseguir os hereges, as bruxas (muitos queimados nas fogueiras) e os liberais que ousaram contestar a palavra de Deus. Podemos dizer que a Igreja se especializou em coar os mosquitos doutrinários, que de forma nenhuma podem ser tolerados, no entanto os camelos passam despercebidos[5]

Sinceramente, e com certa tristeza, vejo que o sonho de Jesus de uma igreja “sal, luz e fermento”, portadora dos valores do reino que se arrasta como uma “rede” apanhando todo tipo de peixe, naufragou no modelo puritano de uma igreja pura, imaculada, separada do mundo e conseqüentemente indiferente aos seus clamores. Confesso que já sonhei com uma igreja encarnada diferente e capaz de fazer diferença; não essa diferença marcada pelo isolamento, preconceituoso, cheio de julgamentos e condenações e sim uma diferença ética em favor de mudanças substantivas, especialmente em benefício dos mais necessitados. Em um dos meus devaneios escrevi: Penso em uma Igreja que seja Espiritual, sem deixar de ser humana, que olhe para cima sem se esquecer da terra, onde a preocupação com o céu e inferno não seja motivo para esquecer as mazelas que afligem os homens aqui e agora” [6]. Eu acreditava na possibilidade dessa igreja vir a existir, eu anelava pela sua presença, coisa que já não acredito mais.

Sonhei também com uma igreja apaixonada pelo mundo, nos moldes do amor divino que “amou o mundo de tal maneira”, mas vejo uma igreja de costas para o mundo, com os olhos voltados para o passado e alheia aos problemas do presente. Acredito que é necessário que a Igreja se apaixone pelo mundo, não como o lugar da ação dos demônios e sim como o lugar onde o reino de Deus está sendo edificado” [7] Já não dá para continuar com esse discurso extraterreno, que a cada dia revela a sua inutilidade para o mundo moderno.

Já não é fácil distinguir uma igreja de um supermercado, elas viraram verdadeiras pizzarias espirituais, onde as bênçãos são vendidas por telefone. Atualmente a certeza da vitória é medida pelos comprovantes de depósito nas contas bancárias de determinados empresários da fé. Nessa verdadeira feira de bens simbólicos:

as igrejas se transformaram em verdadeiros mercados de espiritualidade que comercializam a graça em gôndolas sagradas. A Fé foi transformada em moeda de troca para se adquirir o favor divino. Pastores foram transformados em executivos da fé, preocupados em atender a clientes insatisfeitos em busca de novos produtos, [8]

Ministérios mambembes, verdadeiros camelôs da fé circulam pelo Brasil, ensinando “segredos” para conquistar prosperidade instantânea. Com base em uma hermenêutica pouco convencional do princípio da semeadura, ensinam que se você quer prosperar precisa investir em seus ministérios. Dessa forma enriquecem às custas de pessoas incautas que acreditam que descobriram as chaves divinas para o enriquecimento rápido e fácil.[9] Em nome de Deus, proclamam o calote de dívidas e depósitos milagrosos de dinheiro nas contas bancárias. È a versão evangélica dos Hackers cibernéticos.

Depois dessa breve reflexão, cheguei a uma dura conclusão, à qual me recusava a chegar: Assistimos hoje as exéquias de um cristianismo que feneceu e ainda permanece insepulto e talvez já seja tempo de escrever numa lápide do cemitério da vida o seguinte epitáfio: “Esse é o túmulo do Cristianismo e aqui descansa em paz o Corpo de Cristo”.


[1] ADOLFS, Robert, Igreja, Túmulo de Deus?. p. 64

[2] NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciencia § 125 p. 48

[3]AZEVEDO, Neilton. Religião, Utopia e Esperança: Um projeto de Teologia Libertadora no Contexto Nordestino. Texto não publicado

[4]AZEVEDO, Neilton. Crepúsculo do Fundamentalismo Religioso (Preâmbulo para uma teologia iconoclasta) Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/crepsculo-do-fundamentalismo-religioso.html

[5]AZEVEDO, Neilton. Sal, Mosquitos e Camelos. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/sal-mosquitos-e-camelos.html

[6]AZEVEDO Neilton. Em Busca de uma Eclesiologia Encarnada. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/em-busca-de-uma-eclesiologia-encarnada.html

[7] Idem.

[8] AZEVEDO, Neilton. Disk Bênçãos e Milagres, A era do Cristianismo Delívery. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/03/disk-bencaos-e-milagres-era-do.html

[9] Cf. AZEVEDO, Neilton, Hackers Espirituais, ou a Sacralização do Calote? Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/hackers-espirituais-ou-sacralizacao-do.html

TEXTOS CONSULTADOS:

ADOLFS, Robert, Igreja, Túmulo de Deus? Tradução de Rodolfo Konder, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968.

NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

AZEVEDO, Neilton. Sal, Mosquitos e Camelos. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/sal-mosquitos-e-camelos.html

AZEVEDO, Neilton. Em Busca de uma Eclesiologia Encarnada. Texto Disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/em-busca-de-uma-eclesiologia-encarnada.html

AZEVEDO, Neilton. Crepúsculo do Fundamentalismo Religioso (Preâmbulo para uma teologia iconoclasta) Texto disponível em: http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/01/crepsculo-do-fundamentalismo-religioso.html

AZEVEDO, Neilton. Hackers Espirituais, ou a Sacralização do Calote? http://sagradofilosofico.blogspot.com/2009/02/hackers-espirituais-ou-sacralizacao-do.html



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quarta-feira, abril 14, 2010

MALANDRAGEM UNIVERSAL

Confesso que fiquei enojado, para não dizer revoltado; ao assistir as cenas de um lider da Igreja Universal do Reino de Deus (divulgadas na Internethttp://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=56142&mdl=27) ensinando seus pastores a trapacear para manipular a fé de pessoas crédulas, com o único objetivo de arrecadar dinheiro; para tanto prometia receitas para vencer a crise financeira ocorrida durante o ano de 2008.
Não desejo julgar ninguém aqui; não sou juiz do mundo e nem pretendo ser. As imagens e o audio no entanto, falam por si mesmos; não se trata de opiniões de terceiros sobre o fato; são gravações em tempo real, que os mesmos sequer negam a sua veracidade, apenas tentam justificar o injustificável.
Quais são as lições que aprendemos desse epsódio:
1. Nesse país a picaretagem sempre será recompensada: De nada adianta mostrar ao mundo essas imagens que envergonham a igreja evangélica brasileira e em especial os pastores sérios desse país. Os templos dessas arapucas, desses mercados espirituais travestidas de igrejas continuam cheios e o dinheiro continuará a jorrar em suas torneiras. Enquanto houver pessoas que acreditam em tudo que se diz, de duendes a milagreiros, os embusteiros, os picaretas país terá um campo fertil para ganhar dinheiro de forma fácil. Nada mudou e nada vai mudar.
2. De nada adianta a honestidade e o trabalho sério: Não estou defendendo a malandragem e a desonestidade como modo de vida. Mas convenhamos; é duro ser honesto nesse país. As Igrejas sérias e os pastores honestos que respeitam seus liderados e não exploram a fé dos mais fracos. Tais pessoas não gozam do respeito e da admiração que os ilusionistas de plantão desfrutam. Acho que chegamos ao tempo no qual se cumpre a profecia de Rui Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
3. As pessoas gostam de serem enganadas: As mentiras utilizadas pelos "malandros" da Universal (e é assim mesmo que eles se tratam no vídeo) são tão obvias e velhas, que não dá para entender como alguém ainda acredita nessas babozeiras. Acreditar que entregar tudo que se tem nas mãos de quem quer que seja, seja uma determinação de Deus para abençoar quem precisa é um sinal de infantilidade espiritual. Na verdade, os "malandros" utilizam o velho truque do estelionatário, de oferecer vantagem para suas vítimas, e acreitem ou não funciona, os otários caem como moscas no mel.
4. O demônio realmente existe: Assistir as cenas de pastores aprendendo a enganar as pessoas, brincando e fazendo chacota de suas vítimas, não dão a certeza da existência do diabo, de demônios e de outros seres mais da mesma natureza. A certeza vem das próprias cenas e das palavras ali proferidas. Uma das afirmações do líder é que o "demônio da crise" roubaria o dinheiro das pessoas. De fato isso aconteceu: o demônio roubou o dinheiro daqueles que embarcaram nessa canoa furada. Afinal, todos sabem que o diabo mente, engana, rouba e ilude, so que neste caso, o diabo tem nome, endereço, CPF. cartão de crédito e um gorda conta bancária.
Ate quando, assitiremos essas cenas lamentáveis que se repetem todos os dias? Até que as autoridades desse país resolvam moralizar a religião, que nesse caso como diria jesus tem se transformado em covil de salteadores.

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sábado, abril 03, 2010

O FEITIÇO ERÓTICO DO CASO NARDONI

Sinceramente, nao pensei em escrever acerca desse epsódio lamentável envolvendo a família Nardoni, e que gerou em mim sentimentos estranhos e contraditórios. Tenho me perguntado sem obter resposta alguma: O que aconteceu?
Que feitiço foi esse que dominou o país envolvendo a morte da menina Isabela Nardoni? Que motivação dominou pessoas para pedir dispensa de seus empregos, madrugarem na porta do forum, e se acotovelarem por dias a fio numa sandice poucas vezes vista,clamando por justiça e condenando antecipadamente o pai e a madrasta da menina como os reais assassinos, sem que o julgamento sequer tivesse começado?.
Que erotismo foi esse que invadiu as pessoas num verdadeiro frenesi quase orgásmico fazendo com que muitos declarassem sua plena satisfação com a condenação conquistada pela promotoria? Que prazer insano é esse?
Sinceramente me senti dividido entre a dor da família da menina e o sofrimento dos pais dos acusados; entre a busca pela justiça e a dúvida da autoria (considerando que não se obteve certeza de quem exatamente praticou o crime), fato esse plenamente divulgado pelo circo midiático montado para teatralizar o evento. Entrevistas com Juízes, desembargadores, advogados e juristas de todo tipo. Jurados foram entrevistados, psicólogos interpretaram cada gesto do casal, desde a impassividade às lágrimas, ou seja, o "julgamento" foi transformado num verdadeiro reality show, uma espécie de Big Brother judicial a céu aberto. Permitam que eu aspei a palavra julgamento; não que duvide da lisura do Juíz dos promotores, advogados e jurados ali presentes, as aspas apenas indicam que eles já entraram no tribunal condenados pela mídia, e nenhum jurado no mundo teria coragem de dizer o contrário.
Que erotismo tomou conta desse povo? Acredito que os dois foram eleitos, numa espécie de "bodes expiatórios", um tipo de messias às avessas, para pagar por todos os crimes do país, os deles (se culpados) e por todos os outros que ficaram impunes.
Quantas "Isabelas" existem por esse Brasil afora?, Quantas "Anas Carolinas Oliveiras"? Quantos "Alexandres Nardonis e Anas Jatobás"? Por que não nos excitamos por uma justiça para todos?, porque não fazemos passeatas e vigílias por todos os injustiçados? São perguntas que ainda aguardam respostas.
Durante esse tempo, estive dividido. Entre a necessidade de punir os culpados (se provado serem eles) e a tristeza de saber que milhares de crianças morrem nos hospitais, de fome, de doenças previníveis; são vítimas de corruptos engravatados que compram carros e mansões com o sangue desses inocentes e permancem impunes; fiquei pensando que muitos deles poderiam está ali no meio da multidão clamando por justiça.
Fiquei dividido entre apoiar o trabalho aparentemente sério e comprometido do Promotor Francisco Cembranelli e a angústia de saber que nesse país, promotores, juízes, desembargadores e tantos outros vivem acima da lei.
Pensei no Advogado de defesa. Hostilizado pelas pessoas como um bandido, como se fora um mercenário defendendo um monstro apenas por dinheiro. Creio que ele estava certo (ou errado) acerca da inocência do casal.
Meu coração se partiu em dois ao pensar na possibilidade da menina Isabela ter sido morta por aqueles que deveriam proteger sua vida, e na possibilidade de condenar triplamente um inocente. Pois se Alexandre Nardoni não matou sua filha, terá sido punido inocentemente três vezes; pela perda da filha, pela condenação judicial e pelo afastamento dos outros filhos. Sinceramente penso que seja mais prudente absolver o culpado que condenar o inocente.
Fiquei pensando: Que feitiço erótico é esse que invadiu o país, que levou tantas pessoas a esquecer a realidade e a embarcar numa fantasia de que a condenação do casal seria a esperança de dias melhores para um país injusto como é o Brasil?
Ao olhar para a realidade, percebo que a mídia repisou o fato e decidiu antecipadamente os destinos do casal.
Fiquei pensando na quantidade de inocentes que já foram condenados pelas multidões, e que permaneceram presos por anos até ficar provado suas inocências (recomendo a leitura do livro "Erros Judiciários" de Lásinha Luis Carlos, editado pela Editora São paulo) O livro destaca casos famosos registardos na história, tais como: O Caso Mota Coqueiro - Brasil 1855; O caso dos Irmãos Naves- Brasil 1938; O caso do Padeiro da Ilha de Malta-,; O caso Ivan Garditch- Bulgária 1924; O caso Saco e Vanzetti- Estados Unidos 1927; O caso Jennings - Inglaterra 1762; O caso Dreyfus- França 1894; e O caso do Regatão da Amazônia- Brasil 1800. Além disso, basta procurar na Internet para ver a quantidade de casos existentes no Brasil e no mundo. E se no calor das emoções tivermos julgado erroneamente e o casal vier a engrossar essa lista?
A pergunta que faço é essa; Que feitiço erótico é esse que nos leva ao delírio pelo fato de condenar alguèm?

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sexta-feira, abril 02, 2010

UMA PÁSCOA INVERTIDA

Todos os anos as coisas se repetem na Páscoa. Ovos, peixes, vinhos, encenação da paixão de Cristo, cerimônias religiosas, penitência, procissões, etc. Tudo isso acontece dentro da moldura cujo quadro é a morte de Jesus. Confesso que já me cansei dessa hipocrisia que domina a sociedade nesses dias, dessa falsa espiritualidade encenada travestida de piedade cristã.

Quero uma páscoa invertida, onde a atitude não seja a de presentear ovos de chocolate para aqueles que efetivamente não precisam; uma verdadeira pândega onde aqueles que podem se esbaldam numa gastança desenfreada que denuncia indiferença, egoísmo e falta de solidariedade.

Na páscoa invertida, nesse dia, aqueles que têm, repartem com os mais desafortunados da vida. O presente não é para a família, para os amigos e sim para pessoas anônimas. Afinal Cristo não veio apenas para atender seus familiares e amigos; na verdade ele se deu pelos mais necessitados do seu tempo.

Na páscoa invertida a sexta feira não é dia de comer peixe, e sim de proteger os rios, os peixes, as águas, os mares, os corais. Nessa páscoa celebra-se a vida, incluindo-se aqui o respeito para com os animais e o cuidade com a natureza. Acredito ser essa uma ação muito mais condizente com o espírito do cristo, cuja atitude na cruz denuncia essa ação deletéria de matar, representada na crucificação.

Numa páscoa invertida não há lugar para a celebração da morte; ela deve ser lembrada em silêncio, na intimidade de cada um, sem encenações espetaculares com a atores globais, etc, cujo custo não sei precisar. Nessa páscoa, deve-se olhar para os milhares de "cristos" anônimos, crianças, viúvas, idosos, todo tipo de miseráveis que gemem "crucificados" pela sociedade atual; ainda vivos, porém vivendo seu calvário particular. Esse espetáculo já é suficiente para uma páscoa ao avesso.

Uma páscoa invertida não demanda cerimônias religiosas, atos de penitência, nem procissões. Nessa páscoa, os cultos e missas com seus derivados são substituídos por gestos de caridade, pela descida aos grotões, às favelas, aos casebres que nesse dia assistem atônitos suas panelas vazias; os atos de penitência repetidos muitas vezes até derramar o sangue do penitente, deve ser trocado por um grito em defesa das tantas vítimas da violência, pessoas inocentes cujos nomes não podem ser aqui elencados; sangue derramado que todos os dias continua a verter e que deve causar vergonha e tristeza o suficiente para que não precisemos celebrar qualquer tipo de violência. Procissões se transformam em passeatas pela paz, pela justiça e pelo fim da corrupção. Essa páscoa se parece muito mais com a vida e resgata as atitudes daquele homem crucificado em Jerusalém.

Essa páscoa não existe. Talvez jamais venha a existir. Ela não passa de uma quimera, um delírio que não pode subsistir aos apelos da mídia e dos anúncios comerciais. Eu sei disso! Mas acredite: uma páscoa assim eu celebraria com muito mais entusiasmo.


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