sábado, janeiro 24, 2009

Crepúsculo do Fundamentalismo Religioso (Preâmbulo para uma teologia iconoclasta)

RECENTEMENTE EU VENHO REFLETINDO sobre o discurso de alguns radiopregadores contemporâneos, e não dá para negar que nos encontramos diante de uma verdadeira ditadura religiosa, travestida de zelo doutrinário. Trata-se do surgimento de uma vertente do evangelicalismo brasileiro, que didaticamente denomino como “construtores de fardos” são pessoas que possuem uma queda especial pelo legalismo, pela fantasia, pelo fanatismo e pela ilusão. Esse movimento prega uma espécie de farisaísmo evangélico e seus adeptos se parecem mais com discípulos de João Batista do que seguidores de Jesus.

Conforme sabemos, João era um personagem singular no contexto do primeiro século; tinha problemas com roupas (só usava roupa de pelos de camelo e cinto de couro) era rigoroso em matéria de alimentação (só comia gafanhotos e mel silvestre), tinha tendências ao ascetismo rigoroso (morava no deserto, pregava o jejum e era celibatário); era abstêmio (não bebia vinho ou outra bebida). João era exatamente o inverso de Jesus, que era chamado de comilão e beberrão, vivia na cidade, se vestia como todo mundo, não era fanático por jejuns e era visto participando de festas e banquetes, sem nenhuma culpa ou pecado.

Não é segredo que o cristianismo, especialmente a sua versão fundamentalista, possui uma queda por fardos religiosos, parece ser inerente à sua natureza; a imagem do peregrino de John Bunian com um fardo nas costas ilustra bem esse quadro. Historicamente, o fundamentalismo construiu uma verdadeira fábrica de fardos e uma vez que eles estão prontos, são atados nas costas daqueles que inadvertidamente se submetem aos caprichos de líderes doentes, neuróticos, que confundem espiritualidade com rigor religioso, obediência com legalismo e cuja maior satisfação é acrescentar a cada dia novos pesos, novas exigências que aumentam ainda mais o tamanho desses fardos, tornando a caminhada religiosa, uma cansativa e penosa viagem, na qual é necessário se privar de todos os “prazeres do mundo”, e se apegar a jejuns prolongados, abstinência de tudo e a todo tipo de renúncia, como forma de obtenção de bênçãos espirituais.

Além disso, o fundamentalismo estabelece como padrão para todos, um estilo de vida marcado pelo rigorismo digno de um monge cenobita para dessa forma ganhar uma recompensa após a morte. Nesse sentido, é imposto ao fiel negar o aqui e o agora, a abrir mão da realidade na qual está inserido, para ter a garantia do gozo futuro na eternidade. Não sem razão, se verifica hoje um certo cansaço em relação a esse modelo de cristianismo, ele nega a natureza humana da igreja, rejeita tudo que é material e se espiritualiza. Esse modelo cristão-maniqueísta despreza afinal aquilo que diferentemente dos demais animais, caracteriza o ser humano que é exatamente a busca pela realização, pela satisfação do desejo o anelo pela realização dos sonhos, que nesse caso soa como absolutamente contrário à espiritualidade.

Nesse ambiente, o prazer é relegado como satânico, pecaminoso, imoral, ilegal e, portanto, incompatível com a “santidade” daqueles que se propõem a “seguir a vontade de Deus”. Prega-se um Deus incompreensível, esquizofrênico, que não harmoniza com a sua criação, afinal, não dá para entender que Deus tenha criado o homem dotado de desejos que efetivamente não podem ser satisfeitos.

Estou convencido de que este fardo religioso é absolutamente contrário ao princípio do evangelho, cuja característica é a plena libertação de todo tipo de correntes e amarras da religiosidade. Para os Fariseus que insistiam em enquadrar Jesus no rigorismo excessivo da religião e a obrigá-lo a tomar um fardo religioso sobre seus ombros ele foi enfático: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Mais do que nunca precisamos re-pensar a práxis da igreja, que muitas vezes se torna castradora, repressora, dominadora e, ao invés de produzir o alento, o alívio e o descanso, dedica-se a produzir fardos e a primeira coisa que o novo convertido recebe ao chegar na Igreja é um saco para colocar as neuroses e patologias que passa a receber; dessa forma não é de se estranhar que na atualidade, a igreja tenha perdido a sua relevância e já se verifique um certo desalento em relação à religião enquanto instituição religiosa.

Confesso que como a maioria dos cristãos eu já carreguei esse fardo, considerava que fazia parte das obrigações de todos os que seguem a carreira cristã. No entanto, atualmente tenho tomado algumas decisões sobre fardos religiosos e acho que posso resumi-las assim:

  1. Não carrego mais esse fardo, entendo que ele não contribui em nada para melhorar o que somos, entendo que o principal papel do evangelho (e por tabela, da Igreja também) é tornar o homem melhor, nos humanizar, nos libertar das mazelas do egoísmo, da indiferença em relação à dor do outro, e nos levar para fora de nós mesmo, promover a alteridade como sinal do amor de Deus. Entendo que carregar um fardo religioso, promove o anti-evangelho, pois reduz a nossa visão ao campo de atuação da religião, nos endurece, nos torna arrogantes e intragáveis (quanto maior o fardo, maior o “orgulho santo”): passamos a nos preocupar com as filigranas da religiosidade e perdemos de vista a dimensão divina, esquecemos que a única forma de amar e servir a Deus é no outro, no qual Deus se encontra de forma anônima.
  2. Não mais ajudarei na tarefa de produzir fardos religiosos, nem alimentarei a sua existência, ao contrário: direi de antemão que você também não precisa de um fardo para seguir a cristo. Sei também que muitos possuem seus “fardos de estimação”, estão viciados, dependentes deles é já não conseguem viver sem eles, no entanto, estou convencido que a vida cristã não precisa ser vivida um eterno rolar pedra ladeira acima, uma verdadeira síndrome de Sísifo. Estou convencido de que as palavras de Jesus “vinde a mim todos os cansados e sobrecarregados” nunca foram tão atuais, afinal ele falava para pessoas religiosas, que gemiam sob o peso da religiosidade farisaica, para este ele disse “eu vos aliviarei”. Não sei você, mas eu já decidi o seguinte: Abandonei o fardo religioso que me foi imposto no passado. Ele não mais me pertence ou interessa. Deixei junto a ele um aviso escrito em letras garrafais: “PONTO DE COLETA: DEIXE AQUI O SEU FARDO RELIGIOSO. Vejamos o que acontece.

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sexta-feira, janeiro 23, 2009

PREFIRO ANDAR NA CONTRAMÃO

"É tão arriscado acreditar em tudo como não acreditar em nada" (Diderot)

Conheço o Código de Transito Brasileiro e os perigos de andar na contramão, cuja principal possibilidade é a de provocar uma colisão. Sei também que o bom senso não recomenda que se haja dessa maneira, principalmente quando a maioria quase absoluta concorda que o sentido oposto em que estamos transitando é o caminho certo e a única direção a seguir. E mais, a menos que o motorista seja um suicida eu também não recomendo tal procedimento.

No entanto, em se tratando dos rumos da Igreja Evangélica no Brasil (ou pelo menos parcela dela) eu não vejo outra opção. È seguir com a maioria, nessa verdadeira corrida maluca, ou a andar na contramão.

Talvez seja hora de perguntar quem está na contramão? Será que a mão não foi invertida e a Igreja atualmente insiste em seguir em frente, apesar dos insistentes avisos encontrados pelo caminho?

Prefiro andar na contramão, a seguir em frente na maioria das idéias pregadas e defendidas em nosso tempo. Sei que possivelmente isso implicará em choques, com aqueles que consideram que existe apenas um caminho certo, que cristalizaram suas idéias e não admitem discuti-las. Gostaria de apresentar algumas estradas nas as quais já não já não consigo mais seguir.

Prefiro andar na contramão dessa "Teologia Curupira" que muitos dos nossos líderes insistem em pregar. Chamo "Teologia Curupira", a tendência quase que obstinada de manter os pés para trás e os olhos no passado. È sempre a mesma coisa, toda vez que alguém levanta um problema, a primeira coisa que se faz é voltar os olhos para o passado, a algum texto bíblico e de lá não se consegue mais sair. Essa visão teológica fundada apenas nas experiências passadas, que não se contextualiza, já não consegue responder aos reais problemas que afligem ao homem do presente. Sabemos que a teologia não pode ser estática,

Prefiro pensar uma teologia que ande para frente e olhe para o futuro, que contemple o presente. Creio que Deus não tem compromisso com o passado, as experiências de ontem não obrigam Deus a agir da mesma forma. Estou cansado de ouvir pregações afirmando que "assim como foi com fulano assim será com você". Creio firmemente que Deus age de acordo com a sua vontade e acho temerário afirmar que as coisas vão se repetir tal qual aconteceu no passado.

Algumas perguntas que insistimos em responder já não trazem qualquer contribuição para aqueles que ouvem. Tais como: "As 7 semanas de Daniel", o significado da "agulha e do camelo" Como é o céu? Para onde vão as almas depois da morte? Questões sobre as quais até hoje ninguém conseguiu ser convincente ao tentar responder tais perguntas.

Prefiro a contramão a seguir com aqueles que insistem em fazer da vida cristã um mundo de faz de contas, criando ilusões, castelos de areia, negando a realidade e pregando um Deus manipulável. Já não acredito que seja possível "mover" Deus por meio de jejuns, sacrifícios pessoais, que existam formulas para fazer as coisas acontecerem. Não consigo pensar nesse Deus marionete, que atende aos comandos daqueles que se utilizam de "métodos infalíveis" que podem inclusive ser ensinados e reproduzidos por outras pessoas. Já não acredito que o mundo seja mecânico, onde as coisas "funcionam assim", prefiro aceitar a dúvida à certeza que tudo já está predeterminado, estou convencido de que o elemento central da fé não é a certeza e sim a esperança, sim porque a certeza nos torna estáticos e arrogantes, enquanto que a esperança nos mostra onde estamos e nos estimula a contunuar andando. Prefiro a expectativa do futuro, daquilo que ainda não é ao imobilismo da pregação escatológica, que insiste em afirmar que tudo já está decidido pelos desígnios divino e que portanto nada podemos fazer para mudar. Nesse sentido acredito que Raul Seixas tem mais a dizer que muitos pregadores atuais quando afirma "prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Prefiro a utopia, o ainda não, o "devir", pois conforme atesta Eduardo Galeano:.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Prefiro caminhar contra a multidão a acreditar que tudo que for material, humano e prazeroso pertence ao diabo. Já não aceito a idéia platônica/agostiniana/maniqueísta de que as coisas boas são espirituais e as materiais são ruins. Vou na contramão e digo que tanto o material como o espiritual pertencem a Deus e se todas as coisas foram criadas por ele, são boas, que o Deus não condena o prazer, alegria e a felicidade, porque ele também é o autor das emoções e dos sentimentos .

Prefiro andar na contramão daqueles que professam a idéia do casamento indissolúvel, e do divórcio como pecado. Não pretendo fazer uma apologia ao divórcio e à dissolução do casamento e das famílias. No entanto, já não dá para se tratar tal instituto apenas com base na concepção judaica sobre o casamento. O que fazer quando os relacionamentos se deterioram e passam a produzir apenas sofrimento? Creio ser preferível um divórcio sincero a um casamento de fachada. Manter as pessoas juntas apenas para dar satisfação à Igreja e à sociedade, não parece razoável.

Já não agüento a hipocrisia daqueles que baseados em seus relacionamentos querem fazer regra para todo mundo com frases moralistas do tipo "tenho tantos anos de casado com a mesma mulher" ou com o mesmo homem fazendo disso regra para todo mundo. Tais exemplos via de regra são fornecidos por pessoas que vivem relacionamentos estáveis, (amém por isso), jamais enfrentaram uma crise conjugal e por isso não sabe exatamente o que significa enfrentar o problema. Além disso, cada caso é um caso. Existem crises que são superáveis e outras que não. Impor às pessoas permanecerem presas a um relacionamento que já não existe, é prolongar um sofrimento desnecessário e atentar contra a liberdade das pessoas. È negar que as pessoas podem se equivocar na escolha de seus cônjuges como se equivoca em tantas outras escolhas da vida. Não creio nessa baboseira de "se você escolheu errado pague o preço" Deus não aprova esse tipo de radicalismo quer seja ele na esfera espiritual, conjugal ou qualquer outra.

Depois de ler este texto, você também poderá decidir que caminho seguir, Talvez não seja prudente caminhar na contramão, sendo mais confortável seguir em frente com a multidão; bem nesse caso, vamos ver aonde este caminho levará a igreja brasileira. De qualquer forma, eu já tomei minha decisão: prefiro a contramão da realidade ainda que dura, a seguir o caminho da ilusão, da fantasia que insiste em seguir em frente sem olhar as placas que indicam que existe alguma coisa errada com este caminho.

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quinta-feira, janeiro 22, 2009

A Rede, o Hospital e o Centro Cirúrugico - Repensando a Disciplina na Igreja

QUEM SOMOS NÓS? PESCADORES OU CIRURGIÕES? Qual é a natureza da Igreja? Rede, Hospital ou Centro Cirúrgico?

As perguntas acima se justificam. Atuando como examinador de teologia em diversos concílios, toda vez que questiono acerca da disciplina na Igreja, recebo sempre a mesma resposta. “Existem três tipos de disciplinas: a formativa, a corretiva e a cirúrgica” Alguns as nomeiam de forma diferente e outros apresentam listas maiores com quatro ou cinco formas de disciplinas. Porém, todas elas terminam da mesma forma com a tal “disciplina cirúrgica”, que nada mais é que o afastamento, a segregação, ou seja: A exclusão sumária daqueles que transgrediram as normas e as doutrinas da Igreja.

Sei que muitos dirão: Qualquer manual de eclesiologia vai acatar esta tese e mais: A Bíblia também ensina dessa forma.

Não desconheço essas coisas, e eu mesmo já ensinei e até realizei essa “cirurgia”, e conheço pastores que são “especialistas” verdadeiros “cirurgiões”, que de posse do bisturi, vai livrando o corpo (Igreja) dos “tumores malignos”, das “maçãs podres”, dos “pecadores” que não podem permanecer com os “santos”, “puros” e “imaculados”.

No entanto, olhando à luz do evangelho, e da natureza da Igreja, não veja base para continuar afirmando a existência de tal disciplina. Vejo a Igreja como um Hospital (lugar de restauração, de cura e para onde se leva os doentes e onde permanecem os pacientes terminais) e não como um “Centro Cirúrgico” (lugar de cortar, extirpar os membros doentes). Se o Hospital expulsar os doentes, onde mais eles terão chance de cura? Jesus foi enfático: “Os sãos não necessitam de médicos”. É fácil para a Igreja cuidar apenas dos saudáveis, dos “atletas espirituais”, o desafio é cuidar dos enfermos e acreditar que eles podem se recuperar.

Quero desafiá-lo a olhar além da Teologia Sistemática e dos manuais de eclesiologia na busca de uma nova compreensão sobre este assunto tão crucial para a vida da Igreja. Depois de analisar a matéria, cheguei a algumas conclusões que humildemente compartilho com você:

QUAL A BASE DA DISCIPLINA CIRÚRGICA?

Muitas das idéias que professamos e defendemos muitas vezes são absolutamente estranhas ao cristianismo em suas origens. A Bíblia não faz menção a qualquer classificação disciplinar. Os Pais Apostólicos, especialmente a Didaquê se encarregaram de formular regras para serem aplicadas na vida da Igreja, dando início à formalização do moralismo cristão, guindando a necessidade de “testemunho” acima da prática do amor e da misericórdia. O cisma de Novaciano e a crise de Cipriano, tiveram origem no mesmo problema qual seja: O que fazer com os “caídos”, se poderiam ou não ser readmitidos à comunhão da Igreja.

A nossa Herança teológica, no entanto, tem suas origens no Puritanismo que se desenvolveu na Inglaterra, se instalando posteriormente nos Estados Unidos nos Séc. XVII e XVIII e que influenciou a Igreja protestante emergente, especialmente os Presbiterianos, Batistas e Congregacionais e cuja doutrina fundamentalista é sinônimo de rigidez moral e intolerância religiosa. Nesse contexto, se desenvolveu a idéia de “Igreja pura”, cuja principal porta de entrada é o batismo e cujas portas de saída, a carta de transferência, a compulsória (alguns admitem, outros não), a morte e a exclusão.

Muito bem, nesse modelo, a Igreja é formada pelos “santos”, pelos “puros” “lavados e remidos no sangue de Cristo”, pessoas que “morreram para o mundo”, etc. Nessa Igreja não há lugar para os imperfeitos, para “pecadores e publicanos”. Toda essa visão eclesiológica foi forjada nesse contexto e já não faz tanto sentido nos dias atuais.

Acredito, porém que mais do que tudo isso, a base teológica dessa doutrina se encontra numa hermenêutica equivocada de Mateus 18:15-22.

Algumas observações simples nos levam a entender que o texto não fornece qualquer base para a famigerada “disciplina cirúrgica”, uma vez que nem mesmo faz referência a qualquer disciplina no sentido moderno da palavra. A palavra chave que norteia este texto é “ganhar o irmão” e o contexto nos leva ao desafio de perdoar até setenta vezes sete. Veja bem, estamos falando do mesmo texto. Durante toda a instrução, busca-se ganhar/restabelecer o irmão e não extirpa-lo/amputá-lo como se fosse um membro gangrenado para o qual já não resta qualquer esperança.

Ao final de todas as tentativas realizadas, o texto conclui com a sentença “considera-o como publicano e pecador”. Muito bem, que tipo de atitude o texto está recomendando? A exclusão? Creio que não. Precisamos olhar para o texto sem os condicionantes adquiridos por anos de repetições doutrinárias e refletir sobre o seu real significado. Não se pode esquecer que a forma como ouvimos este texto soar fará muita diferença em nossa compreensão e na definição de seu real significado.

Em primeiro lugar, não consigo imaginar que as palavras “publicano e pecador” possam soar da boca de Jesus em termos pejorativos. Jesus jamais se referiu a quem quer que seja de forma preconceituosa. Talvez o som dessas palavras seja mais doce do que jamais imaginamos ouvir, tal como: “considera como se estivesse tratando com alguém que precisa ser ganho pela primeira vez”. Jesus não rejeitou os publicanos nem os pecadores, nem nos ensinou a proceder assim. Pergunta-se: qual deve ser o procedimento da Igreja para com os pecadores (já que não temos publicanos hoje)? Nesse sentido verificamos aquilo que talvez seja a maior das incongruências da Igreja: a Igreja diz que devemos “amar os pecadores”, que devemos “busca-los”, no entanto, parece que existem dois tipos de pecadores, os de fora e os de dentro. O que fazer com estes? Os de fora a Igreja coloca para dentro e os de dentro ela coloca para fora.

EM SEGUNDO LUGAR precisamos refletir acerca da natureza da Igreja para que possamos cumprir a orientação bíblica. Jesus falou do reino como uma “rede”, que ao ser arrastada apanha todo tipo de peixe e continua sendo arrastada até chegar à praia, onde será feita a separação entre bons e maus. A verdade é que ainda não chegamos à praia, e até lá precisamos ter paciência para esperar que os peixes ruins (isto é pequenos, imprestáveis para serem comercializados) cresçam. Ruim aqui não denota a qualidade do peixe e sim o estágio em que se encontra. Jogar o peixe pequeno fora da rede não é atribuição do pescador, segundo o texto será dos anjos.

Além disso, Jesus também se referiu ao reino em termos de “joio e trigo”. Precisamos de uma Igreja que a despeito de tudo que aprendemos até hoje, aceite deixar o joio e o trigo crescerem juntos. Eu sei que nossa primeira atitude (a exemplo dos homens da parábola) é arrancar o joio, para “limpar” o trigo. Sei também que muitos dirão: “A Igreja não pode ser conivente com o pecado”. Sei ainda que é uma tarefa difícil, espinhosa e dolorosa, no entanto, quem disse que teria que ser assim não fui eu. A segunda coisa importante é que a convivência com o joio não fará o trigo deixar de ser trigo, a Igreja é fermento e precisa aceitar a convivência com a massa, a fim de poder levedá-la.

Estou convencido que a doutrina da “disciplina cirúrgica”, não se harmoniza com o ensino exarado em João 6:37. “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim, e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”. Sei que muitas questões de ordem exegéticas podem ser levantadas aqui, no entanto, creio que a expressão “de maneira nenhuma” dispensa maiores comentários.

Assim, já não vejo razão para que possamos continuar a dizer que a Bíblia autoriza a Igreja a fazer uso do bisturi, a jogar os peixes pequenos fora e a arrancar o joio. Nas palavras de Jesus, “Deixai crescer ambos juntos até a ceifa” (Mat. 13:30).

Estou convencido que a nossa capacidade de discernir entre o trigo e o joio, entre peixe ruim e peixe bom, entre membro que pode ser curado e membro gangrenado, nos impossibilita de procedermos assim. Deixemos que Deus que tudo conhece se encarregue de “limpar” a Igreja, separar o trigo do joio, e fazer as “cirurgias”, se assim Ele quiser. Só assim, evitaremos o “erro médico” de primeiro operar e depois pedir o exame.

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segunda-feira, janeiro 05, 2009

Um Mundo sem Religiões

SEI QUE PARECE ESQUISITO, mas recentemente eu venho pensando nessa possibilidade. Sei também que muitos poderão achar que pensar desta forma é jogar na defesa e fazer gol contra. No entanto depois de algumas reflexões é possível que você também venha a pensar como eu.

Recentemente me encantei com a leitura do livro Religião e Repressão do teólogo brasileiro Rubem Alves. Confesso que algumas afirmações ali contidas me marcaram profundamente e me fizeram re-pensar algumas verdades que me negava a admitir.

Quero compartilhar com você algumas dessas conclusões contidas, nesse texto e desafiar você a refletir sobre elas:

Assegura Alves:

“Deus dá nostalgia pelo vôo.

As religiões constroem gaiolas.

Quando o vôo se transforma em gaiolas, isso é idolatria”.

Não pude deixar também de pensar nas palavras de Jesus: “Em vão me adoram ensinado doutrinas que são preceitos de homens” (Mc. 7.7) O que será que ele estava criticando naquele momento? Como reconhecer uma “doutrina” que seja ou não “preceito humano”, Sabemos, porém que a vocação das religiões é construir e preservar. doutrinas

Diante dessas inquietações, comecei a pensar na possibilidade de um mundo sem religiões.

Obviamente que não estou levantando dúvida sobre a validade da religião como fenômeno, como manifestação de uma espiritualidade sadia. No entanto, não posso negar que as religiões enquanto instituições se transformaram em gaiolas que buscam prender o pássaro da espiritualidade proclamando ainda que ele só pode ser encontrado dentro delas.

Verdade é que a religião tem vocação natural para a proibição, para construir e preservar os tabus, dentro dela não existe lugar para a liberdade e para o vôo. “Prisioneiro, dize-me quem foi que fez essa inquebrantável corrente que te prende? “(pergunta Tagore) Fui eu disse o prisioneiro fui eu que forjei com cuidado esta corrente”.

Toda vez que o “pássaro” se nega a cantar dentro da gaiola e começa a cantar de forma diferente, que o prisioneiro resolve quebrar as correntes, é logo acusado de rebeldia e rotulado de herege, afinal pássaro bom é pássaro adestrado.

Sempre pensei a religião como algo libertador, mas quando olho os sistemas religiosos que atualmente se multiplicam no mundo, suas múltiplas regras normas e proibições, fico a pensar se às vezes esta pretensa liberdade não se traduz em prisão.

Em “Os irmãos Karamázovi”, no relato sobre o Grande Inquisidor, Dostoiévski escreveu: “Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível”. As correntes, algemas e grilhões forjados pela religião impedem que a experiência religiosa se torne um vôo nostálgico e se transforma em uma caminhada penosa. Deixa de ser a manifestação prazerosa da experiência com o sagrado e se torna a cega observância de regras, normas, dogmas e doutrinas, ou seja: a religião passa a escravizar o homem, alimentando-o com a ilusão de que é melhor a segurança da gaiola que a incerteza da liberdade.

Na verdade, as religiões acreditam ter o monopólio da experiência religiosa, de forma que a única forma de liberdade possível é dentro das gaiolas da religião. Nas palavras de Rubem Alves: “As religiões são instituições que pretendem haver colocado numa gaiola o pássaro encantado”

Fiquei pensando: Como seria um mundo sem religião? Sem gaiolas nem correntes! Sei muito bem que o mundo não se transformaria em um utópico Éden na terra, porém vislumbro algumas realidades que poderiam mudar.

Creio que um mundo sem religiões, nos proporcionaria a superação do DOGMATISMO, sabemos que a religião se funda no dogma, na certeza ainda que irracional de que determinada verdade não comporta questionamentos, o dogma representa a mordaça da liberdade religiosa, ela mata a liberdade de consciência, e impede o desvelar de novas compreensões sobre o fenômeno religioso.

Além disso, um mundo sem religiões nos conduziriam pelo caminho para vencer a INTOLERÂNCIA religiosa. Sei muito bem que a religião não é a única responsável pelas manifestações de intolerância na sociedade. Não se pode negar, porém que ela ainda representa o principal foco, as pessoas são inflexíveis e impiedosas na defesa das suas convicções religiosas, talvez motivado por uma intenção sincera, os resultados, porém não precisamos citar aqui, a história é testemunha de que em nome de Deus e em defesa das religiões, muito sangue foi derramado, muita lágrima vertida e a dor semeada em abundância.

Acredito ainda que um mundo destituído das religiões enfim nos proporcionasse o fim dos movimentos FUNDAMENTALISTAS religiosos, a exemplo do Taliban, dos Xiitas, Ku Klux Klan, que serviu para garantir o domínio dos protestantes brancos sobre negros, católicos, judeus e asiáticos dos Estados Unidos.

Creio que um mundo sem religiões nos pouparia do radicalismo e do Legalismo que caracteriza o fanatismo religioso capazes de tudo na defesa intransigente da fé.

Talvez tenha sido pensando assim que o teólogo contemporâneo Dietrich Bonhoeffer idealizou um “Cristianismo sem religião” e Karl Barth a falar do “caráter diabólico da religião”

Penso que um mundo sem religiões, porém, com fraternidade, sem instituições religiosas, porém sensível aos reais problemas que afligem a humanidade, que proporcionasse aos homens uma convivência pacífica e respeitosa, talvez seja um sonho, uma utopia. Más acredite: Eu trocaria todas as religiões do planeta por um mundo assim.

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