segunda-feira, agosto 17, 2009

SOBRE RELIGIÕES, PÁSSAROS E GAIOLAS

TEXTO DE O GRANDE INQUISIDOR DO LIVRO

"OS IRMÃOS KARAMAZOV”
De Fiódor Dostoievski

...( Jesus havia voltado à terra e andava incógnito entre as pessoas Todos o reconheciam e sentiam o seu poder, mas ninguém se atrevia a pronunciar o seu nome. Não era necessário. De longe o Grande Inquisidor o observa no meio da multidão e ordena que ele seja preso e trazido à sua presença.. Então, diante do prisioneiro silencioso, ele profere a sua acusação )...

Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. Em lugar de pacificar a consciência humana, de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, Tu lhe ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens... Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade...

Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o vôo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.

Somos assim : sonhamos o vôo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam...”

Deus dá a nostalgia pelo vôo. As religiões constroem gaiolas

Os hereges são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira.

Palavra do Grande Inquisidor.

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quinta-feira, maio 21, 2009

EM BUSCA DE UMA ESSÊNCIA PARA O CRISTIANISMO

O cristianismo não é uma religião do livro”. A frase não é minha, eu a tomei emprestada de Frei Bento Domingues, e foi extraída do artigo “Sem lugares sagrados” [1] Confesso que me encantou pela originalidade, concisão e pela profundidade com que diz tanto em tão poucas palavras.

O Cristianismo realmente não é uma religião do livro! Mais do que nunca precisamos ter essa verdade bem clara em nossas mentes. No entanto, se “o cristianismo não é uma religião do livro”, como de fato não é; se o seu conteúdo não consiste em observância de preceitos sagrados (não comer determinados alimentos, não trabalhar em certos dias da semana, repetir gestos, jejuar determinados dias por semana, orar virado para tal ou qual lugar, etc). Se a prática do cristianismo não se encontra explicitada em Cânones, que precisam ser observados ao pé da letra; se o ser cristão não pode ser resumido a fazer parte de determinada denominação. Há que se perguntar então: Em que consiste a essência do cristianismo? Qual deve ser então a conduta do cristão em sua caminhada no mundo?

Muitos livros já foram publicados buscando esclarecer qual seja a essência do cristianismo, muitos deles de ótima qualidade. Não podemos deixar de citar, por exemplo, Ludwig Feuerbach, que intitulou uma de suas obras como “A Essência do Cristianismo” e outra como “A Essência da Religião”. Na verdade, discernir o que seja a essência do cristianismo, é uma tarefa urgente e fundamental uma vez que dessa definição depende a nossa postura em relação à missão do cristão no mundo. Sabemos das dificuldades em se fornecer uma resposta final a tal questão, no entanto, podemos apresentar algumas possibilidades.

O CRISTIANISMO NÃO É UMA RELIGIÃO DE RÉGRAS LEGAIS E SIM UM ESTILO DE VIDA BASEADO EM PRINCÍPIOS ÉTICOS. Tenho certeza que você já ouviu esta frese de forma recorrida, ela talvez possa ser considerada um chavão. No entanto, eu a tenho como relevante, e faria muita diferença a levarmos a sério. Se o cristianismo não é uma religião, quais são os elementos basilares que o sustentam? Não seriam os ritos, os símbolos e muitos menos o sistema doutrinário, que muitas vezes se tornam a única coisa visível em alguns círculos do cristianismo moderno. Tudo isso faz parte da estrutura de uma religião. Diferentemente daquilo que efetivamente conhecemos, o cristianismo é essencialmente um sistema baseado em princípios éticos, e suas bases fundamentais são as relações interpessoais. Em sua caminhada histórica, o cristianismo se conformou em ser apenas uma religião, e mais, passou a reivindica ser a única religião verdadeira. Nesse sentido, sustenta Karl Barth ser este o grande erro do cristianismo, ter se tornado uma religião. Nesse momento nos encontramos numa encruzilhada; podemos continuar a seguir o cristianismo em seu formato religioso, ou voltar à sua essência e restaurar a sublimidade do evangelho que é exatamente a libertação das estruturas legalista que marcavam a religião judaica.

O CRISTIANISMO NÃO SE BASEIA NUMA TEORIA SOBRE O BEM E O MAL E SIM NA PRÁXIS DO AMOR AO NECESSITADO. Embora seja exatamente isso que verificamos na práxis da igreja, Isto é, uma eterna repetição de frases, textos e experiências envolvendo a luta cósmica entre o bem e o mal, não deveria, no entanto ser assim. Analisando a práxis de Jesus, verificamos que ele não perdeu tempo teorizando a existência ou não de um dualismo, não se tornou um caçador de espíritos; mesmo nos casos em que os textos fazem referencia a espíritos, na verdade Jesus não está preocupado com eles, e sim com o homem que de certa forma vivia as conseqüências de uma existência sufocada por uma religião legalista e excludente. Nessa forma cristianismo, Deus deixa de ser o Senhor, aquele que tudo governa e passa a ser visto como um conquistador, uma espécie de Gengis Khan divino, guerreando em solo inimigo a procura de despojos. Numa linguagem evangélica, “saqueando o inferno”. O cristianismo acabou por criar um demônio forte que a tudo controla e um Deus fraco, que luta desesperadamente para reconquistar o espaço perdido.

A PROPOSTA DO CRISTIANISMO É HUMANIZAR O HOMEM E NÃO ESPIRITUALIZÁ-LO. Creio que o cristianismo precisa humanizar o ser humano, quanto mais espiritual, mais humano. Lembremos que Jesus se destacou entre nós não pela sua espiritualidade e sim pela expressão máxima de sua humanidade, ninguém foi mais humano que Jesus. Historicamente o cristianismo tem se esforçado para espiritualizar o homem, e nessa busca, se voltou para a metafísica, para o “mundo espiritual”, e passou a combater pretensas forças espirituais, que supostamente são responsáveis pelas mazelas do mundo. Essa concepção determinista/fatalista lançou o homem em uma aventura cósmica, a viver em um mundo assombrado por espírito onde o mal é a regra e o bem a exceção e mais do que isso, gerou uma espiritualidade desencarnada e descomprometida com o mundo real. Creio que o evangelho não pode ser visto apenas como um projeto para a outra vida, ele precisa fazer diferença aqui e agora.
Quais são as implicações de uma re-visão acerca da essência do cristianismo? Talvez ela nos traga uma amarga constatação, de que a história da Igreja nesses dois milênios, tem sido uma caminhada para longe do verdadeiro cristianismo, e talvez cheguemos à conclusão de que somos bons religiosos, porém, talvez nem sejamos verdadeiramente cristãos.

[1] Artigo publicado no blog da Universidade Lusofona, disponível para consulta em vernáculo em http://teologizar.blogs.sapo.pt.

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quinta-feira, abril 02, 2009

Olhando para o Passado, Enxergando o Futuro! “Os Batistas Brasileiros no divã da História”

“Restam-nos a nostalgia e o lamento. Parece que, cansado, Deus abandonou-nos à mercê das nossas próprias inconseqüências.” (Pr. Carlos Cesar Novais)

Não sou saudosista, não acredito nessa história de que “já não se fazem coisas como antigamente”. Parafraseando as palavras do Pr. Ed René Kivitz, em seu livro Quebrando Paradigmas, podemos dizer que isso é porque “já não se fazem coisas para antigamente”, fazemos coisas para o presente e para o futuro. Não creio que o passado seja melhor e que o novo seja diabólico pelo simples fato de ser novo.

Por outro lado, também não sou um sonhador, um tipo de “José do Egito evangélico”, que vive no mundo dos sonhos, buscando sentido nas filigranas da religião; crendo que tudo acontece pela ação de anjos ou de demônios que impedem a sua realização. Quero antecipar que a culpa pelos nossos infortúnios não se encontra no mundo espiritual. Penso como Rubem Alves em seu livro A Gestação do Futuro, que o futuro não é algo determinado, pronto e acabado, ele depende das decisões que tomamos hoje, Deus constrói o futuro juntamente conosco.

No caso dos Batistas brasileiros, e em especial dos alagoanos, acho que olhar para trás, e enxergar o futuro num processo de regressão meta-histórica talvez seja um exercício psicanalítico necessário, uma espécie de terapia às avessas para que possamos nos entender (ou não), encarar as nossas neuroses e esquizofrenias e quem sabe, uma vez conscientes das nossas enfermidades, possamos reencontrar o caminho para garantir a nossa existência no 3º, no 4º ou sabe-se lá em qual milênio. O desafio é sentarmos no divã da história e deixar que ela revele as nossas patologias, uma espécie de regressão coletiva.

Por ocasião da Assembléia da Convenção batista Brasileira em Brasília, algumas inquietações começaram a surgir naqueles que ali estiveram. Creio que o senso comum é de que alguma coisa precisa ser mudada; precisamos avançar bastante para que possamos chegar ao local onde já estivemos antes. Veja bem, neste momento precisamos caminhar para o futuro para chegar ao passado (Freud explica), uma vez que nesse momento o nosso futuro ainda é o nosso passado.

Calma, antes que alguém resolva chamar o psiquiatra para fazer um diagnóstico da minha sanidade, eu explico: Nos últimos tempos nós temos andado com a marcha ré engatada; caminhamos tanto para trás que por mais que caminhemos para frente, ainda assim estaremos em um terreno pelo qual já passamos. Segundo o Pr. Paulo Maurício Lomba:

“Já fomos a maior denominação evangélica do Brasil! Já tivemos o maior parque gráfico da América Latina! Já realizamos as maiores campanhas missionárias de todos os tempos! já fomos recordistas em impressão e vendas de Bíblias (Imprensa Bíblica Brasileira!) Já tivemos um pastor batista brasileiro como presidente da Aliança Batista Mundial! Já tivemos os maiores seminários teológicos da América Latina!”[1]

Podemos acrescentar ainda que já fomos proprietários de um Banco![2], de uma Junta de Rádio e Televisão, dos mais respeitados colégios evangélicos do Brasil, e por ai vai. Veja que nós já “fomos” e já “tivemos”; a verdade é que atualmente “nem somos” e “nem temos” mais. Os tempos de abundância passaram, e nos últimos anos vivemos períodos de vacas magras; fomos ultrapassados em números por denominações que aqui chegaram depois de nós, já não temos onde publicar nossa literatura (utilizamos serviços terceirizados) e cedemos os direitos sobre a impressão de nossas Bíblias para terceiros. Nosso trabalho missionário não vai bem. Nosso patrimônio está sendo vendido em todo o país para pagar dívidas com o Estado. Bem, para não ser enfadonho, prefiro parar aqui; acho que já temos um quadro psicanalítico que indica que de certa forma vivemos hoje o Cativeiro Babilônico dos Batistas. Na opinião do Pr. Carlos Cesar Novais:

Como aconteceu a outras tantas denominações ao longo desses vinte séculos de cristianismo, os batistas surgiram, cresceram e agora, em muitos países, vemos sinais claros do seu melancólico ocaso[3]

Mesmo sem a pretensão de oferecer respostas aos nossos graves problemas que enfrentamos como denominação, proponho um olhar despretensioso sobre a nossa realidade em buscas de um diagnóstico que ateste a nossa momentânea insanidade.

UM POVO SEM JUIZ E SEM REI: A CRISE DE LIDERANÇA

Tenho lido a respeito das frustrações que se abatem sobre os nossos líderes, o desânimo que enfrentam em perseverar nessa caminhada. Talvez devêssemos ter coragem e dizer como Ricardo Gondim, “Estou Cansado”, como faz em um sincero desabafo pastoral:

Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.[4]

Vivemos hoje uma crise de liderança em nosso meio, não que não tenhamos líderes preparados, pessoas sérias e comprometidas com o reino e que amam profundamente o evangelho. O que se percebe na atualidade é uma indisposição generalizada para continuar levando pancadas, ouvindo palavras agressivas e desrespeitosas, muitas vezes produzidas em discursos inflamados e em pareceres apaixonados que em nada lembram que estamos em um ambiente formado por pessoas cristãs. Em artigo duro e igualmente emocionado intitulado Vergonha e Desesperança, o PR. Carlos Cesar Novais assim se expressa:

Tenho vergonha de participar das reuniões do conselho administrativo e das assembléias convencionais, onde — numa patética passarela de encenações e dissimulações — desfilam a mentira, a ironia, a desfaçatez, a astúcia da serpente, a hipocrisia dos fariseus e a violência dos gananciosos. Tenho vergonha de uma denominação que, apesar de estar inserida numa sociedade com graves crises e problemas complexos, aos quais deveria responder com marcantes ações de influência ética, prefere dar amplo espaço a disputas mesquinhas, à estúpida chama da fogueira das vaidades, à repartição implacável dos seus despojos, optando por rodear em torno do seu próprio umbigo, enclausurar-se em seu próprio casulo e tornar-se assim inútil porque fútil, tão fútil e inútil quanto estruturas outras que o tempo fez o favor histórico de enfraquecer, desmontar e extinguir.[5]

Cansados de lutar em vão, muitos preferem se retirar para o aconchego de suas igrejas e não querem sequer ouvir falar em envolvimento denominacional. Vivemos um verdadeiro “salve-se quem puder”, “cada um por si e Deus por todos” ou ainda “todos por mim e eu por ninguém”. Mais do que nunca entendemos as palavras de Jesus, “ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão”, (Mat. 26:31), são tempos de pastores feridos e ovelhas dispersas; líderes machucados, desmotivados, sem forças para continuar. Nesse cenário, sem uma liderança capaz de unir os batistas vivemos o drama do povo de Israel na transição entre a judicatura e a monarquia, “naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Juízes 21:25).

A ILUSÃO DA DEMOCRACIA ABSOLUTA: UM POVO A BEIRA DA ANARQUIA

Não quero ser simplista, sei exatamente que estamos mexendo em um vespeiro, no entanto, não podemos deixar de tocar em um ponto nevrálgico o nosso modelo administrativo. Talvez com um pouco de atraso seja tempo de re-pensar a nossa forma administrativa. Qual o motivo pelo qual enfrentamos dificuldades para gerenciar o nosso patrimônio?

No caso específico dos batistas alagoanos, enfrentamos a vergonha de estarmos hoje alijados dos meios de comunicações a todos disponíveis. Não possuímos programas de televisão, nem de rádio pelo qual possamos nos fazer ouvir (já que até mesmo o velho “Voz Batista” fechou). Não possuímos um jornal Batista, (já nem lembro quando foi que saiu o último exemplar) nem mesmo um blog oficial existe hoje em nosso meio. Vivemos sem dúvida o ocaso da nossa denominação.

Todos nós concordamos que a democracia é uma conquista batista, a luta pela liberdade das pessoas é uma bandeira levantada no passado e que deve permanecer hasteada. O que não se pode negar é que perdemos muito tempo em intermináveis reuniões, comissões, pareceres, GTs e por ai vai. Enquanto os batistas se preparam para mais uma reunião, denominações que ainda deveriam usar fraldas se comparadas com os batistas, passam a nossa frente, conduzida por administrações ágeis e eficientes. Talvez seja hora de termos coragem e admitir que o modelo faliu e não adianta remendar; precisamos de vinho e de odres novos.

A nossa propalada “autonomia” oriunda do princípio da liberdade se transformou em individualismo, e em alguns casos em motivos para a indiferença. Na verdade somos hoje um povo à beira da anarquia e nesse isolamento, vivemos “encaramujados” “ensimesmados” acreditando e pregando que ainda somos os melhores. Queira Deus que a nossa loucura seja revelada no divã da história, pois, se nos negarmos hoje a ouvir a história, não fugiremos de pagar a conta; e a história sabe cobrar.



[1] Os Batistas Brasileiros Em Brasília. Matéria de capa do boletim da Igreja Batista Asa Sul em Brasília, em texto assinado pelo Pr. Paulo Maurício Lomba

[2] Informação prestada pelo Pr. Ademar Paegle da Igreja Batista Casa Amarela em Recife. Segundo informou, tivemos um banco batista que faliu.

[3] Vergonha e Desesperança. Texto disponível em:

http://hojeteologia.blogspot.com/2008/10/vergonha-e-desesperana.html

[5]Vergonha e Desesperança. Texto disponível em:

http://hojeteologia.blogspot.com/2008/10/vergonha-e-desesperana.html

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segunda-feira, março 09, 2009

DISK BÊNÇÃOS E MILAGRES: A ERA DO CRISTIANISMO DELIVERY

Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou: Não ireis pelo caminho dos gentios nem entreis em cidades de samaritanos. Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel. E indo pregai dizendo: o reino dos céus está próximo. Curai enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça daí. Mat. 10:5-8

Depois de ler o texto acima, extraído do Evangelho de Mateus, não podemos deixar de questionar; que lugar ele ocupa na pregação da igreja contemporânea? Como falar de fé e graça em um tempo no qual prevalece a religiosidade de mercado? Jesus orientou seus discípulos a entregar gratuitamente o que assim recebeu. Não autorizou a igreja a construir um rosário de exigências como condição para a bênção, “de graça recebestes, de graça daí”, atualmente alguns pseudo-pastores comercializam o favor divino, requerendo sacrifício e ofertas antecipadas, prática que não encontra supedâneo nos ensinos do evangelho.

A fé tem sido usada como moeda de troca e a graça vendida em estabelecimentos que comercializam o sagrado como outro produto qualquer, de forma que com dinheiro se compra todo tipo de bênção, a tônica da pregação atual é: “fazemos qualquer negócio”

A razão dessa balbúrdia teológica, está na cosmovisão pós moderna, o homem atual está acostumado a viver uma relação de troca, e nessa esteira, tem buscado comprar aquilo que deveria ser adquirido de graça.

Essa visão de Deus tem sido moldada pelos novos movimentos religiosos emergentes no cenário religioso mundial, vivemos era do NEOPAGANISMO – ISOPENTECOSTAL. O termo pode parecer estranho, mas é a forma que tenho encontrado para classificar o movimento moderno das igrejas de resultados, uma igreja que parece pentecostal, mas não é se diz evangélica más não se identifica com qualquer ramo evangélico. Copia o modelo católico, no entanto, se distancia e muito do catolicismo genuíno. Na verdade, suas práticas encontram respaldos nas doutrinas do paganismo antigo, na magia e nas religiões esotéricas antigas, daí a designação neopaganismo-isopentecostal[1].

A marca vais visível dessa nova proposta eclesiastica é o atendimento via telefone, no estilo Delivery, tal qual pizzarias, Pastel Chinês ou coisa do gênero, o cristianismo agora já não representa uma proposta de vida, baseada na entrega, no serviço ao próximo, ele se transformou num produto e a igreja já não é a comunidade de pessoas convertidas, ela se transmutou em um balcão de comérco, onde tudo pode ser adquirido por um preço muito baixo.

Esse modelo de cristianismo prega um Deus bonachão e nepotista, que concede benesses do céu aqui e agora aos bonzinhos e abençoa apenas aqueles que fazem parte do seu circulo familiar. Nessa pregação, Deus existe para oferecer uma vida boa para pessoas descomprometidas com a ética e os valores do reino, porém, disposto a “pagar o preço exigido”, oferecem uma visão mercadológica da fé, onde os sofrimentos não existem; fé que é mais superstição com forte ênfase no misticismo religioso, mistura de magia com religiosidade popular.

Sobre esse modelo de cristianismo, algumas verdades devem ser compreendidas:

EXISTE UMA DIFERENÇA BRUTAL ENTRE FÉ BÍBLICA E FÉ BASEADA EM CRENDIÇES SUPERSTIÇIOSAS

Em primeiro lugar, é necessário dizer que a fé supersticiosa é essencialmente pragmática, as coisas valem enquanto funcionam, ela se manifesta como meio de conquista de bens terrenos, e apenas é invocada em tempos de crise. Fé que se fundamenta numa pregação chantagista emocionalista em que o fiel é obrigado a dar primeiro para depois receber. Esse tipo de fé não se volta para a Deus, seu objeto de invocação, são objetos sagrados e amuletos religiosos.

Além disso, a fé supersticiosa se baseia num evangelho de consumo, que pode ser comprado, adquirido nas prateleiras dos supermercados de bens simbólicos, evangelho que pode ser leiloado pelo quem dá mais, onde é possível escolher entre uma bênção de R$50,00 ou R$ 500,00? Atualmente uma das formas mais fáceis e seguras de enriquecer é fundando uma religião.

A fé supersticiosa adquire um caráter mágico, ela se nutre de jargões, frases feitas, gestos ensaiados, como meio de promover o milagre. Uso de pontos de contatos, sabonetes, rosas, tapetes de fogo, enxofre, fogueira sal, todo tipo de bugingagas, reduzindo a igreja a uma enorme feira que vende todo tipo de bênção.

A verdadeira fé se volta para Deus e não para as suas benesses, busca servir ao próximo e não ser servido, a marca da verdadeira fé é a entrega e não a busca, a generosidade e não o desejo insano de conquista

HÁ UMA DIFRENÇA FUNDAMENTAL ENTRE GRAÇA E ESCAMBO RELIGIOSO

A teologia do escambo concebe a vida cristã como uma transação financeira com o céu; quanto maior a oferta, maior o retorno que se traduz em bênção, e nesse balcão, a fé funciona como moeda de troca. Na teologia do escambo a graça é coisificada, quantificada pelo valor da oferta, mercantilizada, manipulada por executivos do evangelho.

Os mercadores do evangelho baseiam suas pregações na repetição do passado, afirmam, “se aconteceu com Davi, vai acontecer com você”, A graça é conquistada pelo uso do jejum como meio de chantagem, “ele vai ter que responder”, no uso e abuso de campanhas, novenas e correntes, - corrente de Jó, de Davi, dos 12 apóstolos, dos 318 pastores, do cheque, da abundância, das sete orações, do fechamento do fogo, da caverna dos milagres, amarrando o valente e destruindo o gigante, etc

EXISTE DIFERENÇA ENTRE ESPIRITUALIDADE E ESPIRITUALISMO MAGICO

Na era do Cristianismo Delivery, a espiritualidade é transferível, você liga faz seu pedido e recebe a bênção, do outro lado da linha, alguém se encarrega de entrar em contato com Deus que prontamente atende, são verdadeiras pizzarias espirituais.

Vivemos a era da comercialização espiritual, em que as igrejas se transformaram em verdadeiros mercados de espiritualidade que comercializam a graça em gôndolas sagradas. A Fé foi transformada em moeda de troca para se adquirir o favor divino, pastores foram transformados em executivos da fé, preocupados em atender a clientes insatisfeitos em busca de novos produtos, estamos numa encruzilhada, para onde iremos? Que podemos fazer? Bem podemos à moda antiga orar ao pai pedindo que ele nos ilumine o caminho para que tenhamos discernimento quanto ao verdadeiro sentido do ser cristão; ou então nos render aos novos tempos, pegar o telefone e simplesmente pedir que um dos gurus de plantão em alguma rádio desse país faça isso por nós.



[1] A expressão Isopentecostal é utilizada pelos teólogos argentinos, no Brasil temos diversas designações para o movimento: Pentecostalismo Autônomo (Biettencourt), Neo pentecostalismo, Pós Pentecostalismo, (Paulo Siepierski) e Pseudo pentecostalismo (Washington Franco)

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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

HACKERS ESPIRITUAIS, OU A SACRALIZAÇÃO DO CALOTE?

Ora, os que querem ficar ricos, caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. ( I Tim. 6: 9-10)

HACKERS SÃO PIRATAS DE COMPUTADORES e ficaram conhecidos, pela capacidade de violar sistemas de segurança e invadir computadores de grandes instituições bancárias para desviar vultosas somas de dinheiro para contas particulares, independentemente da realização de qualquer depósito. Um hacker não precisa se preocupar; com apenas alguns clics, invade sistemas, captura senhas, e o dinheiro simplesmente aparece na conta bancária.

Já o caloteiro, é aquele velho conhecido dos brasileiros, um “esperto” que compra e não paga; toma dinheiro emprestado e não quita a dívida, passa cheque sem fundos e jamais resgata, além de outras práticas similares. Em síntese, adquire as coisas com extrema facilidade, simplesmente “passando a perna” nos credores.

Historicamente essa prática foi condenada pela igreja, que com base nos sólidos princípios éticos da honestidade, da decência da dignidade, ensinava que o cristão deve ser íntegro pagar as suas dívidas e não se locupletar com o suor alheio. Acontece que os tempos mudaram (e parece que Deus também mudou), o evangelho já não leva em conta essas pequenas filigranas da vida cristã. Já vai longe o tempo em que os pastores pregavam sobre honestidade, probidade e lisura no trato com os negócios; tempos em que os cristãos eram orientados a devolver aquele troco errado que recebeu no ônibus ou a carteira encontrada na rua com dinheiro e documentos; tempos em que ser cristão era sinônimo de integridade, inteireza e de retidão.

Recentemente, os valores foram invertidos, e agora os pastores ensinam formas de enriquecer sem esforços, simplesmente tirando vantagem da sua condição de filho de Deus, e pasmem! Deus não apenas apóia a desonestidade nos negócios, agora, Ele mesmo promove esse tipo de transação escusa; essa é a conclusão que chegamos, depois de fazer uma análise, ainda que perfunctória da teologia da prosperidade (ou da desonestidade) e do ensino de seus profetas.

DEUS AGE COMO HACKER E DINHEIRO APARECE NAS CONTAS DOS CRISTÃOS.

Sem dúvida essa é uma das piores teologias já produzidas em todos os tempos, e representa uma degeneração da própria teologia da prosperidade, Os profetas dessa teologia chegam ao despautério, de envolver Deus nesse verdadeiro imbróglio teológico, nessa maracutaia espiritual, qual seja a de imitar as práticas ilegais dos piratas de computador. De repente alguém freqüenta uma palestra proferida por um guru, e no dia seguinte, os “milagres” começam a acontecer, (Deus só faz a transferência bancária e cancela a dívida, depois que o cliente, passa por um treinamento).

Sinceramente eu não sei nem pretendo saber de onde vem o dinheiro que aparece nas contas, (se Deus transforma papel em dinheiro ou se ele desvia de outras contas) a verdade é que num passe de mágica (ou de esperteza) o dinheiro aparece na conta; verdadeira obra de hacker, e o mais intrigante é que o mentor dessa transação esquisita ilegal e imoral é o próprio Deus em pessoa. Quem quiser acreditar que acredite, eu não creio nisso, afirmo categoricamente que Deus está fora desse esquema, e que cristãos de verdade também não entra nessa.

DEUS ABENÇOA E PROMOVE O CALOTE, APAGANDO REGISTROS DE DÍVIDAS

Mais esquisito ainda que as operações bancárias de transferência ilegal de dinheiro é o apoio que Deus agora dá ao calote. O esquema funciona mais ou menos assim: Alguém compra o que não pode pagar, toma dinheiro emprestado, esbanja tudo como bem quiser e deixa a dívida por conta de Deus, tais dívidas nunca serão pagas, elas simplesmente serão apagadas dos arquivos dos credores; e não existe sistema seguro, afinal é o próprio Deus quem viola as senhas. Em outros tempos isso seria considerado como pirataria cibernética e apagar dados, como cybercrime de estelionato, no entanto, hoje é reputado como “bênção” “milagre”, e sinal de espiritualidade, por outro lado, aqueles que ensinam como ganhar dinheiro assim, são chamados de “homens de Deus”. É a sacralização da desonestidade.

Finalmente, Deus assumiu seu lado Hobin Hood tira dinheiro de quem tem (ou não) para dar a aqueles que desejam enriquecer facilmente. Se essa moda pega, teremos em breve um novo perfil para a idéia de santidade e espiritualidade; santo será aquele que conseguir fazer “aparecer” o maior volume de dinheiro na sua conta bancária; espiritual será aquele que fizer “desaparecer” a maior de todas as dívidas. Nesse tempo, a primeira coisa que alguém vai ter que fazer ao se converter, na igreja, não será comprar uma Bíblia, participar de qualquer treinamento. A coisa mais urgente será abrir uma conta bancária, a segunda tão importante quanto a primeira será contrair uma dívida, o terceiro passo, assistir uma palestra proferida por um pastor pop star e aguardar as bênçãos, ou seja: o dinheiro jorrar na conta bancária e as dívidas sumirem. Depois disso, é só contrair novas dívidas para que Deus tenha o que fazer, afinal é para isso que ele existe.

O mais estranho de tudo é que Deus também leva a sua parte do bolo e isso antecipadamente. Sim, para que tudo possa dar certo, o cliente precisa fazer um depósito antecipado na conta de Deus, ou seja: uma oferta generosa a ser entregue ao seu representante aqui na terra; só depois do ok, Deus começa a atuar. Se esse negócio continuar, não estará longe o dia em que os jornais estamparão a notícia da prisão da ‘quadrilha de Deus’, formada por estelionatários sagrados e Hackers espirituais, nesse dia será difícil explicar que o dinheiro tem origem divina e que foi Deus quem apagou os dados dos computadores.

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