sábado, fevereiro 07, 2009

ÓPIO, RELIGIÃO E ILUSÃO

Creio que a religião tem uma vocação natural para o sonho, para a ilusão e a fantasia. O fato da religião se dirigir para a dimensão transcendente, ou seja, se voltar ao mundo espiritual faz com que esta se afaste da concretude da existência e se projete para o imaginário, para o encanto e o sonho, cuja existência é produzida unicamente pela fé. Desde os tempos imemoriais, o discurso religioso tem apontado para o além, para o mundo ideal e o seu conteúdo apenas faz sentido a partir desse imaginário coletivo. Daí Rubem Alves afirmar taxativamente em seu livro, O Que é Religião: que "sonhos são as religiões dos que dormem. Religiões são os sonhos dos que estão acordados"

Em si mesmo, o sonho e a imaginação, e porque não dizer: até mesmo a ilusão não produzem qualquer mal à manifestação religiosa, o sagrado se nutre do improvável, afinal, como afirma Martin Heidegger “o homem é uma síntese entre o tempo e a eternidade: ora tragado pelo tempo, ora sonhando com a eternidade. O problema é quando a religião se apóia unicamente nesse pilar, quando o sonho se torna devaneio e a ilusão vira neurose, quando a religião assume o caráter de ópio que adormece e neutraliza as ações concretas do mundo real, lançando o homem no mundo dos sonhos e promovendo o sono como condição para sonhar, quando a religião entorpece os sentidos, produzido uma verdadeira esquizofrenia espiritual.

Toda vez que avançamos no terreno "religioso", precisamos aceitar a neurose como meio e até mesmo como um anti-projeto de uma espiritualidade sadia. Acredito que por esta razão, os profetas não desenvolveram um sistema religioso ou pelo menos não se apegaram a uma religiosidade em seu sentido formal, isto é: Não construíram templos, não possuíam um cerimonial religioso, não elaboraram um sistema doutrinário, regras legais prescritas, não foram adeptos de moralismos nem desenvolveram rituais. Não ofereciam sacrifícios (e até mesmo questionaram a sua validade).

Em lugar de tudo isso, preferiram adotar um código ético-social, baseado na justiça, e na prática do bem comum. Além disso, mesmo parecendo estranho, os profetas criticaram a religiosidade própria dos círculos sacerdotais, especialmente a formalidade e o rigor cerimonial. Para eles, “Deus prefere a misericórdia ao sacrifício”.

No mesmo sentido, Jesus não se caracterizou como um fanático religioso, não se identificou com a religião judaica, preferiu olhar para a terra, para o reino de Deus (que estava fundado entre os homens) e não em algum lugar cósmico, numa dimensão etérea do mundo espiritual. O reino era justiça, misericórdia, toque, pão e aceitação.

Talvez Karl Barth tenha razão quando afirma que a tragédia do cristianismo foi se tornar uma religião por que agindo assim, perdeu a sua dínamis e se cristalizou, passando a existir apenas como remédio, como morfina ou ópio, atuando como neutralizante da dor e do sofrimento ou proporcionando a ilusão para aqueles que preferem fugir da realidade. Se quisermos uma religião que seja dinâmica, transformadora, deveremos fazer o caminho inverso, transformar a práxis da religião segundo a proposta original do cristianismo original, fora disso, a religião vai continuar cumprindo seu papel, ou seja: Vai permanecer iludindo e promovendo sonhos (ou pesadelos), mantendo os homens vivendo num intervalo entre a loucura e a serenidade. Creio firmemente que a religião não é necessariamente um ópio, mas pode se tornar; que a ilusão não fornece um meio seguro para peregrinar na dimensão religiosa, e que sonhar pode ser um exercício saudável, desde que não nos prenda a um mundo imaginario.

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terça-feira, fevereiro 03, 2009

Sal, Mosquitos e Camelos

“...Dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciais o mais importante da Lei a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis fazer estas coisas sem omitir aquelas. Condutores cegos que coais um mosquito e engolis um camelo” (Jesus Cristo) Mat. 23:23-24

RECENTEMENTE EU FIQUEI CHOCADO e acho que você também ficou com o drama de um pai. A imagem do desespero do pai do menino João Roberto, covardemente metralhado e morto pela polícia dentro do carro da mãe inquietou a minha alma; mas foram as suas palavras que calaram fundo no meu coração. Não pude deixar de atentar para a profundidade quase profética da frase:

“eu não posso pagar por esta sociedade podre que eles construíram”.
Fiquei pensando: É verdade vivemos em uma sociedade podre, no entanto, não pude deixar de questionar de quem é a culpa? Se a sociedade está podre, possivelmente faltou sal para salgar e preservar esta sociedade, impedido que apodrecesse; afinal Jesus disse que somos o sal da terra. Talvez devamos ter coragem e humildade para admitir que não houve sal suficiente para impedir que o mundo arruinasse.


Ainda com as imagens de um pai desesperado e nas suas palavras, fiquei a pensar na Igreja e algumas imagens me vieram à mente. De forma que quero humildemente compartilhar com você. Inicialmente, quero destacar que todas estas imagens não foram colhidas do ministério de ninguém, eu olhei para mim mesmo, para a minha práxis, para o meu ministério, e admito que elas podem ser absolutamente estranhas ao seu.


PRIMEIRAMENTE EU VEJA UMA IGREJA SILENCIOSA QUE FAZ MUITO BARULHO
:


Quando falo em Igreja silenciosa, eu penso no silencio sepulcral que a Igreja insiste em manter diante de dramas como este que atinge todos os dias a sociedade brasileira, inocentes que são trucidados, a injustiça campeia, a corrupção. A violência aumenta, as Igrejas reduzem seus horários de culto (e isso realmente tinha que ser feito) colocam grades nas janelas, compram sistemas de segurança, e por ai vai, sentindo a falsa ilusão de que tudo está bem. No entanto não se vê nenhuma manifestação de protesto, nem a voz profética da igreja se levanta para colocar desinfetante nessa podridão.


No entanto, se temos uma Igreja silenciosa quanto aos graves problemas que a todos afeta, encontramos uma Igreja que grita, faz barulho, esperneia (nada a ver com os pentecostais), esses gritos e todo o barulho que se ouve na mídia (e nos púlpitos) diz respeito à possibilidade de aprovação da PL 122/2006 que criminaliza a homofobia. Houve intensa movimentação na Internet com envio de E-mails para Senadores, Deputados, etc. Recentemente ouvi em acalorado debate evangélico, que "se tal projeto for aprovado haverá uma guerra civil no Brasil. Que a Igreja não deve se calar nem se dobrar diante da lei." Muito bem, não quero tecer aqui qualquer crítica a aqueles que assim procedem, acredito que estão movidos por sinceras convicções, nem fazer apologia à aprovação do famigerado PL 122/2006, no entanto gostaria muito que todo esse vigor da Igreja para combater, e guerrear, indo até às últimas conseqüências se manifestasse também em defesa de outras causas. Que a dor daqueles que perdem seus entes queridos também sensibilizasse a Igreja a escrever E-Mails, a protestar e a pedir mudanças. Que as mazelas que afligem a sociedade, não sejam encaradas como simples camelos, ao passo que venhamos a nos esmerar na caça aos mosquitos (não o Aedes Egipt) uma vez que nem isso incomoda a Igreja, nunca ouvi um sermão acerca dos perigos desse mosquito.


O sal precisa sair do saleiro até porque não se pode salgar se o sal insiste em se manter separado, não se envolver.


EM SEGUNDO LUGAR EU
VEJO UMA IGREJA DIVIDIDA ENTRE COAR MOSQUITOS E ENGOLIR CAMELOS
:


A história da Igreja está recheada de atitudes que muitas vezes consome as energias e enfraquece a sua influência no mundo, a exemplo da luta histórica da Igreja para perseguir os hereges, as bruxas (muitos foram queimados nas fogueiras) e os liberais que ousaram "contestar a palavra de Deus". Podemos dizer que a Igreja se especializou em coar os mosquitos doutrinários, que de forma nenhuma podem ser tolerados, no entanto os camelos passam despercebidos e ainda perguntam: camelo? Que camelo? Não vejo camelo nenhum! E mesmo que eles existam podem ser facilmente engolidos, perigosos mesmo são mosquitos, cuidado com eles!


Temos nos especializado em caçar fantasmas, como as perigosas mensagens subliminares escondidas nos filmes do Rei Leão, Harry Potter nos desenhos animados e nas músicas. Mensagens que aparecem quando se inverte a rotação (não sei se funciona com CD). Coamos os perigosos mosquitos das marcas de roupas, da coca-cola e engolimos os camelos dos desvios de verbas da saúde, da educação, da corrupção, das centenas de vidas ceifadas todos os dias.


EM TERCEIRO LUGAR
, VEJO UMA IGREJA COM OS OLHOS FECHADOS, COM OS OUVIDOS TAMPADOS E O NARIZ CONGESTIONADO
: (santo resfriado)


Não sou contra a música, acredito na sua importância para a vida da Igreja. Nas orações e nas celebrações como instrumento de transformações. O problema é quando a visão é dominada pela cegueira ou pelo menos por uma grave miopia que nos impede de ver o que se passa ao nosso redor. Quando os gritos de desespero daqueles que sofrem hoje soam longe e são encobertos pelo som (muitas vezes ensurdecedor) dos instrumentos e pelo canto que embala os nossos cultos. Muitas vezes só nos lembramos que o mundo está podre, quando o mau cheiro invade as nossas casas, quando a dor do vizinho muda de endereço e se identifica com o nosso.


Há uma multidão que se une para realizar shows evangélicos, cantar e se divertir. Nas palavras de Jesus, devemos “fazer estas coisas sem omitir aquelas”, Não sou contra show evangélico acredito até que os crentes deveriam se divertir mais, sorrir mais, sair da redoma e desfrutar a vida que é um dom de Deus. Não acredito que a verdeira felicidade está depois da morte, acho que ela pode e deve ser desfrutada aqui e agora e se projetar para além da morte. O que preocupa é que a Igreja parece adormecida, diante de uma crise que cada dia se aproxima mais de cada um de nós, que o mau cheiro da sociedade não precise primeiro chegar aos nossos narizes para que venhamos a nos incomodar.

O poema de Martin Niemoller traduz o perigo da indiferença e as conseqüências do silêncio:

Primeiro levaram os judeus,

Mas não falei, por não ser judeu.

Depois, perseguiram os comunistas,

Nada disse então, por não ser comunista,

Em seguida, castigaram os sindicalistas,

Decidir não falar, porque não sou sindicalista

Mais tarde, foi a vez dos católicos,

também me calei, por ser protestante.

Então, um dia, vieram buscar-me

Mas, por essa altura, ja não restava nenhuma voz,

Que, em meu nome, se fizesse ouvir.

A pergunta que não quer calar é simples: Quantas outras vidas ainda precisam ser ceifadas antes que a Igreja começe a agir? Quantos camelos ainda serão engolidos, enquanto a Igreja se ocupa em coar mosquitos? E a bem da verdade, muitas vezes motivada por preconceitos que contrariam o próprio espírito do evangelho.

O Mau cheiro do mundo aumenta a cada dia, o odor impregna o ar e mais cedo ou mais tarde, vai chegar aos nossos santuários e isso certamente vai incomodar os cristão. Quem viver verá.

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domingo, fevereiro 01, 2009

O Fenômeno Religioso na Pós-Modernidade

Abordar o fenômeno religioso na pós-modernidade é tocar numa questão complexa, que se reveste de maior complexidade à medida que enfocamos os aspectos mais subjetivos dessa nova religiosidade. Diante da enorme diversidade que se verifica no fenômeno religioso atual, e pelas constantes transformações que manifesta em todos os seus aspectos, uma vez que promove uma troca quase que constante de idéias, ritos, símbolos e doutrinas, levadas de um lado para outro pela mídia, o que torna quase impossível dizer quais elementos pertencem ou não a determinados grupos religiosos. O que temos como marca desse fenômeno é a diversidade, a heterogeneidade, o misticismo, o hibridismo religioso e o pragmatismo (as coisas valem enquanto funcionam).

Quando falamos de fenômeno religioso na pós-modernidade, precisamos ter em mente que estamos tratando com uma realidade absolutamente diferente de tudo que já se viu até o momento em termos de experiência com o sagrado.

Obviamente que não podemos falar da religiosidade no contexto pós-moderno dentro de uma visão absoluta, uma vez que uma das marcas da pós-modernidade é a ausência de absolutos. Entendemos, portanto, que todas as verdades sobre o fenômeno encontram limite na própria idéia da relatividade: os fenômenos são e não são ao mesmo tempo, a liquidez e a volatilidade também é um sinal da pós modernidade e se reflete da mesma forma na religião.

Mesmo assim, podemos destacar algumas marcas dessa manifestação religiosa, enfocando obviamente a religiosidade do catolicismo popular e a que se manifesta no contexto protestante.

Uma das marcas desse fenômeno é o misticismo, a valorização excessiva do emocional e o abandono da razão. Parece contraditório que vivamos hoje quase que um retorno aos períodos mais primitivos da raça humana. Elementos das crendices religiosas mais elementares ganham espaço na religiosidade atual. O esoterismo, o neo-paganismo, crença em Duendes, Gnomos, anjos cabalísticos, tarôs, horóscopos, cartomancia, quiromancia, etc., ganham espaço na espiritualidade do homem moderno e se manifesta em harmonia com as crenças mais ortodoxas de grupos tradicionais.

Por outro lado, se verifica a banalização da fé e a mercantilização da graça; a graça já não é concedida por Deus de forma gratuita e desinteressada, ela é conquistada por um baixo preço através da manipulação de jejuns, “correntes de orações,” “cultos de descarrego”, “cultos da conquista” de “novenas”, etc. Tem sempre uma “noite” para cada necessidade. O que você quiser é só freqüentar o culto certo, e Deus não tem escolha, tem que atender às reivindicações ali depositadas. A igreja já não é o lugar “aonde você vai para servir” ela se tornou a prateleira onde se vende bênçãos, milagres, curas, CDs, DVDs, livros de todo tipo, objetos ungidos e sagrados e todo tipo de bugigangas que alimentam a volúpia de alguns que enriquecem enquanto prometem prosperidade para os outros.

O sagrado passou a ser mercadoria comercializada como qualquer outro produto nas prateleiras do “mercado religioso”. Na contemporaneidade a idéia é a facilidade, a virtualidade, e o imediatismo. A mídia trouxe o “delivery” para a igreja, para a qual você liga, faz o seu pedido, (e a pergunta é essa mesma, qual o seu pedido?), feito o pedido, o guru de plantão entra em contato com Deus que envia a resposta para o problema, seja ele qual for.(normalmente, financeiro, de saúde e sentimental). Vivemos hoje o fenômeno da igreja virtual, conduzida por pessoas sem rostos, sem manifestação de afeto, que se conhecem apenas pela voz e pelo numero da conta bancária onde os clientes depositam os recursos para manter os programas de rádio e televisão(usados para pedir mais dinheiro).

Atualmente, a religião e até mesmo Deus já não é um senhor a quem o homem busca servir e estabelecer relacionamentos, ele, na verdade está a serviço do homem e serve enquanto possa atender aos desejos e caprichos do cristão.

Mais do que nunca, se verifica uma grande confusão nas crenças religiosas protestantes, vivemos em meio a uma verdadeira babel religiosa. Encontramos dentro das crenças e das práticas protestantes elementos oriundos do xangô, do espiritismo, da magia, das religiões africanas, da teosofia, da valorização dos sonhos, uso de fórmulas mágicas, palavras que funcionam no estilo abracadabra, dentre outros, e o mesmo se verifica na direção contrária, idéias do catolicismo e do protestantismo estão impregnadas na religiosidade desses grupos. Na verdade, já não podemos falar daquilo que sejam sinais distintivos de determinada manifestação religiosa. Vivemos atualmente o tempo da antropomorfização do sagrado (Deus é concebido em termos humanos) e da divinização do humano (o culto voltado para agradar o homem). É o fim da religião e o começo da pós-religiosidade, (para cunhar mais um termo novo). Nesse contexto prevalece a privatização do divino, qualquer pessoa cria a qualquer momento uma nova religião, forjada com retalhos de crenças outras. Temos poucas opções: abandonar a religião ou nos preparar para viver esse novo tempo.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Pastores-Pajés ou Curandeiros?Profetas ou Xamãs

Alguém pode se perguntar: O que estas figuras aparentemente tão distintas fazem juntas em um mesmo texto? Ou a despeito de que uma abordagem filo-teológica busca uma identidade entre eles?

Confesso que, embora historicamente exista afinidade quanto à atividade, isto é todos eles se encontram dentro da moldura de líderes religiosos dentro de determinado sistema político-cultural-religioso, no entanto, sempre guardaram entre si significativas diferenças, de forma que seria fácil distinguir um pastor de um pajé ou de um curandeiro e conseqüentemente, um profeta de um xamã.

Não ofereço aqui qualquer julgamento quanto à validade das crenças e das manifestações religiosas de tais líderes. Nem estabeleço aqui qualquer hierarquia valorativa entre eles. Reconheço seus valores e os tenho como significativos para a construção da espiritualidade de suas comunidades.

Atualmente, no entanto, parece que estas figuras vivem uma verdadeira simbiose, de forma que diversos elementos perfis e idéias que deveriam distingui-los deixaram de ser exclusivos e se encontram presentes na práxis religiosa de muitos líderes, que a despeito de se auto -intitularem “pastor”, se comportam como pajés ou curandeiros e muitos que adotaram o título de “profetas” na verdade manifestam comportamentos que nada tem a ver com o profetismo, são na verdade práticas típicas do xamanismo.

Vivemos na atualidade uma enorme confusão doutrinário-teológica, resultante da mistura provocada pela religiosidade pós moderna, onde já não é seguro afirmar quais são os elementos originais de determinado sistema religioso, político ou filosófico, isso parece ser algo comum a este tempo. Acontece que no caso específico da religião as conseqüências são muito maiores.

Atualmente ao ouvirmos determinadas pregações, não sabemos se estamos diante de um pastor ou de um pajé, munido de suas crenças e cerimoniais, lançando mão de incensos, negociando com espíritos que insistem em dominar os corpos dos seres humanos, provocando todo tipo de enfermidades e sofrimentos. A tarefa pastoral não se caracteriza por perseguir demônios, armados de esconjuros e bordões do tipo “ta repreendido”, “sai dele” e tantos outros largamente utilizados nos rituais de “expulsão de demônios”. Essa função é desempenhada com sucesso pelos curandeiros, feiticeiros e demais “guias espirituais” de qualquer tribo indígena.

A tarefa do pastor consiste em cuidar de pessoas, e não atuar como caçador de espíritos no melhor estilo dos caça fantasmas; acreditar em um mundo assombrado, dominado por forças malignas, não nos coloca muito longe das crenças verificadas nos círculos indígenas, e atribuir a espíritos malignos a responsabilidade por todos os males que se abate sobre as pessoas, não nos distingue de um curandeiro ou de um xamã.

Quanto aos profetas, estes não se caracterizaram por adivinhar o futuro, fazer prognósticos sobre o que vai acontecer e revelar os segredos das pessoas. Eles foram homens que assumiram compromisso com os problemas que afligiam as pessoas em suas relações sócio-político-econômicas, e reconheciam que os males não eram causados por forças cósmicas que conspiravam contra os indefesos mortais. Na verdade eles não tergivessaram, deram nomes e endereços aos verdadeiros responsáveis pela miséria e pelo sofrimento do seu povo, eles viram nas injustiças sociais do seu tempo, os reais demônios a serem exorcizados.

Se apegar a batalhas espirituais, combater um mal metafísico e se envolver em verdadeiras cruzadas contra espíritos etéreos, que supostamente espreitam as pessoas, e controlam os seus corpos e desprezar os “demônios” corporificados que todo dia semeiam o sofrimento a tristeza e a dor no mundo de forma clara e evidente, é deixar de ser profeta para assumir o lado xamã do ministério pastoral.

No entanto, é bom que se esclareça que não estou lançando descrédito sobre a a existência do mal, de espíritos ou qualquer outro elemento da crença religiosa evangélica ou não. O que questiono é a limitação da ação da Igreja, e por tabela dos seus ministros, a uma atuação desencarnada e platônica, o que a meu ver não se coaduna com a proposta do evangelho vivido e pregado por Jesus.

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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Um Evangelho Tabajara

“E indo pregai dizendo o reino dos céus está próximo. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça daí” (Mat. 10:7-8)

SEUS PROBLEMAS ACABARAM. Esta frase que identifica os produtos das Organizações Tabajara acaba de perder a sua exclusividade (talvez tenha sido pirateado) e já pode ser tranquilamente aplicada ao cristianismo moderno. Novos “princípios da prosperidade Bíblica” foram descobertos e agora você também já pode aprender e desfrutar, uma vez que é partilhado (ou vendido) a quem quiser.

Seus problemas acabaram: Você que sempre sonhou em ser rico, ter um iate, morar numa cobertura de frente para a praia, trocar de carro todo ano e viajar para onde quiser, agora você já pode. Qual é o seu problema? Dívidas a pagar? Cheque Especial no vermelho?, cartões de crédito atrasado?, hipoteca da casa?. Agora você não precisa mais se preocupar com essas coisas! “Pare de sofrer!”. Chegou o novíssimo e revolucionário Evangelho Tabajara. Dívidas canceladas, dinheiro que aparece na sua conta bancária, sonhos que se realizam desejos saciados como que por encanto. Só é pobre quem quer. A riqueza e a prosperidade agora se encontram a apenas um toque. Em apenas uma palestra você também aprende todos os segredos para fazer Deus atender aos seus caprichos, não importa quais sejam.

A lógica é simples: Deus possui um certo código secreto que uma vez decifrado, coloca o detentor do conhecimento no comando da história. Deus deixa de ser Senhor e passa a ser servo a serviço dos homens, até por que não é para isso que Deus existe?
Ser cristão na atualidade se tornou um grande negócio, aliás, onde mais você encontra uma crença que vem acompanhada da garantia de prosperidade? Vai-se longe os tempos em que o ideal da vida cristã estava voltado para o outro, para a prática do bem, nos moldes do samaritano (vai e faze a mesma coisa).

Atualmente, prega-se um evangelho Tabajara, pragmático, que vale pela sua funcionalidade, pelos resultados que proporciona e pelos lucros que garantem aos seus consumidores.
Atualmente, ao invés da Bíblia talvez seja mais sincero o uso do Código de Defesa do Consumidor. Já que se propala aos quatro ventos satisfação garantida, deve-se também acrescentar: “ou seu dinheiro de volta” (copiando o Actívia), já que a moda é copiar.

Vivemos um tempo de graça desvalorizada e de fé inflacionada (exercer a fé custa caro). Assistimos atualmente a pregação de um Deus Bonachão do tipo Papai Noel que concede benesses a alguns poucos iluminados que descobriram os segredos de Deus e agora vendem “colas” para quem desejar passar na prova sem precisar estudar.

Tal evangelho pressupõe uma visão mercadológica da fé, evangelho de consumo que se pode mercadejar, negociar nos balcões da vida, onde a palavra de ordem é desfrutar uma vida boa e confortável na qual os sofrimentos não existem.

O evangelho Tabajara prega uma Igreja parecida com um Shoping Center que existe para atender aos seus clientes, onde o que importa é que eles entrem e saiam satisfeitos, afinal o cliente sempre tem razão.

Além disso, este evangelho divulga um cristianismo R$ 1, 99, onde tudo é barato, em promoção e até mesmo em liquidação. Nesse feirão espiritual a regra é: quem dá mais, dou-lhe uma, dou-lhe duas, pagou levou. Leva mais quem oferece mais.

Esse tipo de evangelho se fundamenta numa fé chantagista, emocionalista característica da pregação pseudo-pentencostal, onde a ênfase NÃO ESTÁ NO SER E SIM NO TER. Mercadores de ilusões viajam pelo país vendendo sonhos (ou devaneios) e fantasias (ou alucinações coletivas) e caro, diga-se de passagem, para aqueles que querem ficar ricos, mas condenam a Mega Sena.
Essa teologia concebe a vida cristã como uma transação financeira com Deus, quanto maior a oferta maior a bênção. Assistimos hoje a mercantilização da fé conduzida por executivos do evangelho, que apresentam aos incautos, um Deus caricaturizado, nepotista e agiota que abençoa aqueles que podem dar mais e abandona os que não podem demonstrar sua fé por meio da oferta.

O que assistimos hoje é uma geração de pessoas frustradas com a fé, decepcionadas com a graça e desiludidos com a Igreja. A única forma de valorizar a graça de Deus é oferecê-la gratuitamente, uma vez que a graça não tem preço. Muito bem, façam suas apostas, a sorte está lançada, e quem sair por último por favor apague a luz.

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